Uma professora de enfermagem explica por que os profissionais de enfermagem são essenciais para cuidar da saúde dos brasileiros, especialmente durante a crise de doenças respiratórias. Ela alerta que esses profissionais são desvalorizados, com salários baixos e condições de trabalho difíceis, e que investir neles é uma questão de saúde pública.
O Brasil voltou a tossir, e desta vez com números que não deixam dúvida. A maioria dos estados brasileiros apresenta níveis de alerta, risco ou alto risco para a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), segundo o mais recente Boletim InfoGripe da Fiocruz, com mais de 100 mil casos registrados em 2026. No centro dessa resposta, na UBS que vacina, no corredor do hospital que monitora, na UTI que não dorme, está a enfermagem. E é exatamente essa profissão que o país mais subestima.
Falar de doenças respiratórias graves sem falar de enfermagem é como falar de construção civil sem falar de engenheiro. Tecnicamente possível. Praticamente impossível.
- Quase todos os estados brasileiros estão em alerta para a SRAG, com mais de 100 mil casos em 2026.
- A enfermagem é a principal força de trabalho no combate a essas doenças, desde a vacinação até os cuidados intensivos.
- Mais da metade dos enfermeiros e técnicos em enfermagem recebem salários abaixo do piso nacional previsto em lei.
- O trabalho do enfermeiro é técnico e baseado em evidências, ajudando a detectar agravamentos antes que se tornem irreversíveis.
- Investir na valorização da enfermagem é uma questão de saúde pública, não de interesse corporativo.
O papel da enfermagem na crise de saúde
Quase todos os estados brasileiros apresentam incidência de SRAG em nível de alerta, risco ou alto risco, com tendência de crescimento nas últimas semanas. O aumento das hospitalizações é impulsionado por influenza A, vírus sincicial respiratório e rinovírus circulando simultaneamente, uma combinação que exige do sistema de saúde resposta rápida, contínua e altamente especializada. Essa resposta tem nome: enfermagem.
Na atenção primária, é o enfermeiro quem organiza as campanhas de vacinação, a ferramenta mais eficaz contra casos graves, acolhe a população, administra imunobiológicos e educa sobre o reconhecimento precoce de sintomas. É ele quem impede que um quadro leve vire uma internação. Em 2025, os casos de SRAG registrados nas primeiras 24 semanas foram 30% superiores aos do mesmo período de 2024, e a cobertura vacinal seguiu aquém do necessário. O alerta não foi ignorado pelos profissionais de saúde. Foi ignorado pela agenda pública.
O trabalho nas UTIs e a importância do cuidado técnico
Quando a internação acontece, é a equipe de enfermagem que monitora sinais vitais, controla a oxigenação, implementa o isolamento respiratório e garante que os protocolos sejam cumpridos. Na UTI, o enfermeiro monitora parâmetros ventilatórios, previne pneumonia associada à ventilação mecânica, maneja dispositivos invasivos e é o elo humano entre o paciente isolado e a família que espera do lado de fora.
Esse cuidado não é intuitivo. É técnico, sistemático e baseado em evidências. O processo de enfermagem estrutura cada decisão clínica: coleta de dados, diagnóstico, planejamento, implementação e avaliação. O exame físico realizado pelo enfermeiro, com inspeção, ausculta e avaliação do padrão respiratório, é muitas vezes o que detecta um agravamento antes que ele se torne irreversível.
A desvalorização da enfermagem no Brasil
E ainda assim, a enfermagem segue sendo a profissão mais presente e menos reconhecida do sistema de saúde brasileiro. O Brasil tem mais de 3 milhões de profissionais de enfermagem, o maior contingente de trabalhadores da saúde do país. Presentes 24 horas por dia, 7 dias por semana. Mas os números que descrevem sua realidade são constrangedores: 53,5% dos enfermeiros, 68,4% dos técnicos em enfermagem e 38,7% dos auxiliares ainda recebem abaixo do piso salarial previsto em lei, segundo dados do Dieese apresentados recentemente na Câmara dos Deputados. A inflação já corroeu 18% do poder de compra do piso desde sua aprovação, e muitos profissionais precisam manter dois ou três empregos para garantir renda suficiente.
O cenário de 2026 acompanha o período sazonal de circulação de vírus respiratórios, entre os meses de março e agosto, e ainda estamos no início desse ciclo. A pergunta que precisa ser feita não é só "quantos leitos temos", mas "quantos enfermeiros qualificados e devidamente remunerados temos para ocupá-los"
Investir na formação, na valorização e nas condições de trabalho da enfermagem não é pauta corporativa. É política de saúde pública. É o que determina se um paciente grave vai sobreviver ou não. Quando o Brasil tosse, a enfermagem responde. Está na hora do Brasil responder pela enfermagem.




