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12 de julho de 2026

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Vila Mimosa: 30 anos de luta e sobrevivência no Rio de Janeiro

CIDADES Prostituição 12/07/2026 07:10 Thaynã Rodrigues - Extra extra.globo.com

A Vila Mimosa, famosa área de prostituição no Rio, completa 30 anos em um novo local. Desde a mudança forçada em 1996, o local enfrenta queda de clientes, abandono e insegurança, mas as profissionais do sexo continuam lutando para sobreviver.

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Foi uma grande confusão. Em 1996, o prefeito Cesar Maia mandou acabar com a histórica zona de prostituição que ficava no centro do Rio desde o início do século. Acabava ali a famosa Zona do Mangue, que inspirou poetas como Manuel Bandeira e Vinicius de Moraes e artistas como Lasar Segall e Di Cavalcanti. Eles escreveram e pintaram sobre o local, mas para quem vive daquele trabalho a realidade sempre foi muito mais difícil. A ideia inicial era levar as cerca de 1.800 mulheres que trabalhavam lá para Duque de Caxias, cidade vizinha. Mas isso não aconteceu. As mulheres foram parar na Rua Sotero dos Reis, em São Cristóvão, bem pertinho de onde estavam antes. Depois de 30 anos, elas continuam lá, no ponto de prostituição conhecido como Vila Mimosa.

  • Cerca de 1.800 profissionais do sexo foram transferidas da Zona do Mangue para a Vila Mimosa em 1996.
  • Os preços dos programas variam de R$ 20 a R$ 120, com custos extras para o quarto e preservativo.
  • A maioria das mulheres que trabalham lá são mães solo e de baixa renda.
  • A pandemia fez diminuir o movimento no centro da cidade, o que afetou a clientela.
  • Apesar das dificuldades, muitas mulheres conseguem sair da prostituição com estudo e programas sociais como o Bolsa Família.

A mudança não foi nada fácil. As profissionais tinham um prazo para sair e, se não obedecessem, 250 policiais entrariam no local, como o jornal noticiou na época. A área onde ficava a Zona do Mangue virou alvo de interesse de construtoras e ganhou novos prédios. Um deles, o Centro Administrativo São Sebastião, onde fica a prefeitura, ganhou até um apelido que lembra os tempos antigos: Piranhão. Na Vila Mimosa, perto da Praça da Bandeira, a vida das profissionais do sexo continua, mas não está nada fácil.

Em uma terça-feira à tarde, Cátia (nome fictício), na esquina da VM, como o lugar é conhecido, conta que está com a conta bancária bloqueada. Um cliente, com quem ela passou mais de uma noite, contestou o Pix de R$ 900 que ela fez para pagar pelos serviços. Ela ligou para o banco, reclamou, mas não adiantou. Cátia entrou na prostituição no fim dos anos 1990, precisando criar dois filhos sozinha. Ela diz que conheceu uma Vila Mimosa cheia de movimento, mas hoje procura outros lugares, porque acha que não consegue competir com as meninas mais novas. "É muito ruim não ter nada dentro de casa. Eu trabalhava na Barra como garçonete, com 17 anos. Um dia, uma mulher me disse: 'vou te levar a um lugar em que você vai ganhar muito dinheiro'. Me lembro certinho do dia seguinte, quando cheguei em casa com duas sacolas de mercado depois do programa. Meu filho ficou feliz porque tinha Danone. Quando cheguei à VM, fiquei horrorizada. Mas hoje gosto da vida que eu levo. Meus filhos têm 23 e 25 anos. Estou com 39, tentando sair, mas é difícil viver com pouco. O que eu ganho é um dinheiro rápido. Não é fácil, mas é rápido", afirma ela.

Depois de 30 anos, a Vila Mimosa, que funciona em um galpão de um frigorífico abandonado, sobrevive na Rua Sotero dos Reis como um mundo à parte, cercado por oficinas e pequenos comércios. A diminuição do movimento na região central da cidade depois da pandemia, junto com o abandono e a falta de segurança, afetam o local. De dia, a música nos bares perto do galpão ainda não está no volume que irrita as garotas, que mal conseguem conversar com os clientes. À noite, tem homens jogando sinuca e bebendo. Relatos de que algumas casas estão caindo assustam as profissionais.

"Preferi vir trabalhar na rua. Tenho mais liberdade de dormir onde eu quiser. Já fui da Vila, mas não gosto do barulho nem do cheiro. Agora no frio aqui está bom. Os homens gostam de conchinha", diz Talita, que faz ponto perto da Rua Ceará e, com o marido preso, usa o dinheiro para criar o filho.

Na VM, a maioria dos clientes é das classes C e D. Os valores podem começar em R$ 20, para as mulheres em situação mais vulnerável, com dependência química ou precisando muito de dinheiro. A média fica entre R$ 60 e R$ 120 por meia hora, sem contar o aluguel do quarto (R$ 30) e o preservativo (R$ 1). Todas reclamam dos homens mais jovens: eles bebem, usam drogas e desrespeitam as mulheres, tocando nelas antes do programa e querendo sexo sem camisinha. Hoje em dia, há mais informação sobre métodos anticoncepcionais e medidas de emergência para quem teve relação sem proteção, além de visitas de enfermeiros, médicos e agentes de saúde.

Rodízio de mulheres

A VM de hoje está mais devagar do que nos anos 2000, quando virou point e aparecia em músicas de MCs famosos. Segundo a Associação de Moradores do Condomínio e Amigos da Vila Mimosa, mais de mil mulheres trabalham no local. Esse número grande não aparece porque a maioria segue um rodízio: vai em dias específicos da semana, de quarta a domingo. Nos últimos 20 anos, mais oportunidades de estudo e trabalho, a religiosidade, o esvaziamento do Centro e a desvalorização de parte da Zona Norte fizeram com que as mulheres e os clientes se espalhassem.

"Muitas saíram da prostituição porque tiveram mais oportunidades. O Bolsa Família ajudou. Além de terem conseguido estudar, passam mais tempo com a família. Uns anos atrás, teve até uma que passou numa prova da área da saúde e devolveu o benefício", diz Cleide Almeida, representante da associação, onde costumam ser oferecidos cursos de capacitação.

A documentarista Chris Alcazar passou anos frequentando a Vila Mimosa para gravar o documentário "Quando vira a esquina", da produtora TvZero, que está disponível em streaming. Nesse projeto, ela conheceu dezenas de garotas com histórias parecidas: filhos para criar depois que os maridos, a família ou ambos as abandonaram. Na Vila, elas criam personagens para garantir o sustento. "A história delas se repete de maneira assustadora. São mulheres pobres, periféricas, a maioria negra, mães solo: 99% das que conheci são mães solo. Aquilo ali é um recorte do país", diz a roteirista. "Percebo que lá nenhum homem quer ser visto. Elas vestem uma fantasia, performam. E eles tiram as máscaras. Mas não querem aparecer."


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