Uma área na Zona Norte do Rio de Janeiro, perto de Del Castilho e Maria da Graça, está prestes a se tornar um bairro oficial. São apenas dez ruas que antes abrigavam funcionários de uma antiga fábrica têxtil, que hoje é um shopping center.
Um lugar tranquilo na Zona Norte do Rio, com um toque inglês, está prestes a se tornar um bairro oficial. São dez ruas, com casas grandes e típicas de subúrbio, conhecidas como Bairro dos Ingleses. O nome vem de muito tempo atrás, quando técnicos da Inglaterra vieram trabalhar em uma fábrica de tecidos chamada Nova América e se mudaram para lá.
- O que você precisa saber sobre o novo bairro:
- O projeto de lei para criar o Bairro dos Ingleses já foi aprovado na Câmara Municipal e agora espera a assinatura do prefeito.
- A região fica entre os bairros de Del Castilho e Maria da Graça e tem apenas dez ruas.
- As casas são grandes, com quintais amplos e muitas têm piscina, mas o bairro é todo cercado por grades e cancelas por causa da segurança.
- A história do bairro começou com a antiga fábrica têxtil Nova América, que hoje é um shopping center.
- Os moradores querem se tornar um bairro oficial para ter mais atenção da prefeitura, como áreas de lazer e mais segurança.
Um projeto de lei aprovado na Câmara Municipal no dia 30 de junho cria o bairro e agora espera a assinatura do prefeito Eduardo Cavaliere. A região é quase toda residencial, com ruas largas e cheias de árvores. Segundo a associação de moradores, existem cerca de 800 imóveis que pagam IPTU, e os terrenos são grandes, com pelo menos 500 metros quadrados. Os quintais são enormes e muitos têm piscina. Mas, para se sentir mais seguros, os moradores colocaram grades e cancelas que cercam quase toda a área.
A história dos ingleses no Rio
A fábrica Nova América fechou e virou um shopping no começo dos anos 1990. Muito antes disso, os ingleses que comandavam a fábrica já tinham ido embora do Rio. Mas muitos moradores ainda lembram bem da fábrica. Um deles é o aposentado Milton Alves Raposo, de 84 anos. Ele trabalhava no departamento de pessoal da empresa e se mudou de Jacarepaguá para o Bairro dos Ingleses em 1973, com a esposa e a filha mais velha. O filho mais novo já nasceu no novo bairro.
Segundo Milton, a fábrica alugava as casas para os funcionários por um preço bom. Ele conseguiu uma casa no Bairro dos Ingleses, que era destinado principalmente a quem tinha cargos de chefia e aos estrangeiros. "Os ingleses eram os melhores técnicos têxteis que existiam e, por isso, a Nova América os contratava. Os que tinham família moravam aqui. Já os solteiros ficavam em um alojamento na entrada da fábrica", lembra Milton. "Eles já vinham arranhando o português."
Moradores antigos e suas histórias
Outra moradora antiga é Yolanda Veneroni Berthoux, que hoje tem 105 anos. Ela também conseguiu alugar uma casa na Rua Pires de Carvalho na época. Depois, comprou um terreno e construiu a casa onde mora até hoje, na Rua Resende Costa. Yolanda foi secretária-executiva e braço direito de Adhemar Bebiano, presidente da fábrica e ex-dirigente do Botafogo.
O neto dela, o advogado Fernando Berthoux, de 59 anos, lembra com carinho das histórias que ouviu e da infância no bairro. "Os filhos e netos dos ingleses jogavam bola comigo. E todos tinham nomes da terra de seus ancestrais: Stanley, Anthony, Bryan. Todos falavam português, mas um havia nascido na Inglaterra e tinha sotaque. O bairro era muito legal", conta Fernando, que brincava na rua até tarde da noite.
O novo bairro e suas ruas
O futuro bairro fica entre a Avenida Dom Hélder Câmara e o muro do metrô, perto da estação de Maria da Graça. As ruas são: Antônio de Freitas, Atílio Milano, Domingos de Barros, Ferreira Cardoso, Guanacás, Jacutinga, Pires de Carvalho, Resende Costa e Silva Rosa, além da Travessa Malafaia.
Com o aumento da violência, o hábito de brincar na rua foi diminuindo. Hoje, uma das reclamações dos moradores é o furto de cabos, comum na região. Em outubro de 2024, a prefeitura autorizou que oito ruas fossem fechadas com controle de acesso. Placas nos postes informam o número do decreto. Grades já foram colocadas em cinco lugares, inclusive na Rua Pires de Carvalho, onde há uma guarita vermelha que parece uma cabine telefônica londrina.
Por enquanto, apenas o acesso da Rua Domingos de Barros para o metrô, que é só para pedestres, é fechado à noite. Só moradores podem passar, usando uma tag. Os outros pontos com grades têm cancelas para carros, mas só vão funcionar totalmente quando todo o bairro for cercado. Esse trabalho é feito pela Associação dos Moradores e Amigos do Bairro dos Ingleses (Amabi), que está criando um CNPJ.
Melhorias e segurança
As melhorias, como a instalação de 32 câmeras de monitoramento (16 já funcionam), são pagas com uma "caixinha" da associação. Cada família contribui com R$ 50 por mês, e cerca de 200 pessoas ajudam. A ideia de criar o bairro surgiu do fechamento da região. O principal articulador foi o coronel da Polícia Militar Sérgio Lessa, de 80 anos, que trabalhou na Assembleia Legislativa do Rio. Lá, ele conheceu o deputado Pedro Fernandes, pai da vereadora Rosa Fernandes, que apresentou o projeto na Câmara.
O presidente da Amabi, o taxista Zeca Domingues, explica: "A vantagem de se tornar um novo bairro é poder ser mais visto pelo poder público. Por exemplo, não temos área de lazer. Para fazer alguma coisa, é preciso sair do bairro."
O que dizem os especialistas
A arquiteta e urbanista Leila Marques, presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil, diz que criar um bairro não resolve tudo, mas pode ser importante. "Criar um novo bairro não é apenas reconhecer uma identidade local: é criar uma nova unidade de planejamento urbano. A partir desse momento, a cidade passa a enxergar aquele território de forma própria, produzindo indicadores específicos, orientando investimentos e qualificando a gestão pública."
Em outubro de 2025, a prefeitura criou outro bairro, o Argentino, que fica entre Brás de Pina, Vila da Penha e Vista Alegre. O Argentino é o segundo menor bairro do Rio, com 752 moradores, atrás apenas de Grumari, que tem 184. A renda média no Argentino é de R$ 6,2 mil por mês, maior do que em regiões como Catete e Méier.








