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20 de julho de 2026

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Ceará tem alta de furtos em igrejas e terreiros

CIDADES Furtos 19/07/2026 13:20 Clarice Nascimento, Diário do Nordeste diariodonordeste.verdesmares.com.br

O Ceará registrou 1.114 furtos em templos religiosos entre 2023 e junho de 2026, uma média de 26 casos por mês. Igrejas católicas, evangélicas e terreiros de religiões afro-brasileiras são os principais alvos. A segurança foi reforçada com câmeras e voluntários, mas líderes religiosos pedem mais proteção do Estado.

Diario Flip

Nos últimos anos, locais de fé estão sendo invadidos e furtados no Ceará. De igrejas cristãs a espaços de povos de terreiro, 1.114 furtos a espaços religiosos do Estado foram registrados entre 2023 e junho de 2026, o equivalente a 26 casos por mês. Só no primeiro semestre deste ano, foram 163 ocorrências.

Os dados foram extraídos pela Superintendência de Pesquisa e Estratégia de Segurança Pública (Supesp) e enviados a pedido do Diário do Nordeste pela Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS).

  • 1.114 furtos em templos religiosos no Ceará em 3 anos e meio
  • Só em 2026, já foram 163 casos até junho
  • Igrejas católicas, evangélicas e terreiros são os principais alvos
  • Líderes religiosos se unem para pedir mais segurança
  • Vitrais históricos e objetos de prata foram danificados ou roubados

Em nota, a Pasta destaca que consideram-se templos religiosos imóveis de qualquer denominação, incluindo igrejas, conventos e outros espaços de cunho religioso.

Um dos casos mais recentes ocorreu na última sexta-feira (10), quando a Paróquia São Raimundo Nonato, localizada no bairro Rodolfo Teófilo, em Fortaleza, foi furtada e vandalizada. O suspeito arrombou as portas da Capela do Santíssimo Sacramento, da sacristia e da sala do dízimo, além de ter espalhado diversos objetos litúrgicos no chão.

Ele também subtraiu equipamentos eletrônicos, como televisão e notebook, que eram necessários para as transmissões das missas ao vivo. O serviço de comunicação foi temporariamente interrompido e uma mobilização de doações foi iniciada para o restabelecimento das atividades pastorais.

Impactos na comunidade religiosa

Representantes das principais religiões existentes no Estado reconhecem que os ataques podem causar apreensão nas comunidades. O presidente da Associação Beneficente, Cultural e Religiosa Afro-Brasileira do Ceará (Abecra), Josimar Alves Torre Serafim, conhecido como Pai Josimar Tranca Rua, diz que a violência cria um clima de medo constante entre os povos de terreiro, que se sentem vulneráveis diante da falta de proteção.

Segundo ele, os espaços de religiões de matriz africana são alvos de depredação e invasão por preconceito e falta de conhecimento. Destaca ainda que é preciso haver união entre as religiões para combater a violência religiosa.

Se a gente não se preocupa quando está acontecendo com nossos irmãos, está no caminho errado. Se aconteceu com a Igreja Católica, também vai acontecer com a gente de terreiro, afirma.

Prova disso é que até a Catedral Metropolitana de Fortaleza, a principal igreja da Arquidiocese, foi invadida na madrugada do dia 3 de março deste ano. Embora nenhum objeto tenha sido efetivamente levado durante a ação, o local sofreu danos significativos.

Um vitral de valor histórico - que data da fundação do templo, em 1978 - foi quebrado, a sacristia foi encontrada revirada e diversas peças de prata foram localizadas já preparadas para serem levadas pelos invasores.

O pároco da Catedral, padre Clairton Alexandrino, lamentou a igreja-mãe da Arquidiocese totalmente saqueada desse jeito. Os vitrais são caríssimos porque foram importados da Áustria e da Bélgica. Para consertar, é muito complicado, tem que mandar para São Paulo, explica.

À época, a Arquidiocese afirmou, em nota pública, que a sociedade enfrenta uma crescente sensação de insegurança, que tem atingido, de forma particular, as igrejas, símbolos de fé e patrimônio da cidade.

O caso da Catedral fez parte de uma série de ocorrências registradas em igrejas do Centro. No dia 15 de janeiro, a Capela de São Pedro, pertencente à Catedral, teve os condensadores de ar-condicionado furtados.

No dia 26 de fevereiro, outro furto, mas de sinos, foi registrado na Igreja de São Bernardo, vinculada à Paróquia Nossa Senhora do Carmo.

Maior aparato de segurança

O pastor José Francisco de Oliveira Filho, presidente da Ordem dos Ministros Evangélicos do Estado do Ceará (Omerce), detalha que as situações adversas levaram os templos a se adaptarem e reforçarem a segurança dos locais.

Como prevenção desses atos de vandalismo, diversos templos religiosos já contam com câmeras no entorno e equipes de membros da Igreja para ficar na recepção, que muitas vezes alertam e os membros conseguem adoção de providências para minimizar os danos, diz.

As lideranças apontam para a necessidade de orientar seus fiéis para fortalecer a fé e garantir o cumprimento das leis. O pastor diz que os líderes espirituais são orientados a acionarem as Forças de Segurança e registrar as ocorrências para que haja investigação e responsabilização dos envolvidos.

Para Josimar, a resposta aos casos é importante, mas há uma ausência de um tratamento equânime por parte do poder público. Não é porque a gente é de matriz africana que a gente não tem que ter direito a uma segurança pública adequada, aponta.

No cemitério municipal aqui de Madalena, se a gente levar uma imagem do seu Zé [Pilintra], ela não fica. É violada, ela é quebrada. E a gente vê que as imagens que são da Igreja Católica continuam.

Por isso, a liderança reforça a importância de capacitar as Forças de Segurança para que compreendam os direitos dos povos de terreiro e saibam como agir em casos de violência, evitando o silenciamento das vítimas.

No Ceará, de acordo com o Censo Demográfico de 2022, 27.861 pessoas se declararam praticantes de Umbanda, Candomblé e outras religiões afro-brasileiras. O número representa 0,37% dos 7,6 milhões de residentes com 10 anos de idade ou mais.

Já em relação às religiões cristãs, são 5,3 milhões de católicos e mais de 1,5 milhão de evangélicos no Estado, ainda conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Em nota enviada ao Diário do Nordeste, a SSPDS afirmou que a Polícia Militar do Ceará (PMCE) realiza policiamento ostensivo em cada Área Integrada de Segurança Pública (AIS), com equipes de Policiamento Ostensivo Geral (POG), Força Tática (FT), viaturas especializadas e policiamento a pé.

Além disso, conta com o apoio de unidades especializadas como o Batalhão de Polícia de Trânsito Urbano e Rodoviário Estadual (BPRE), o Comando de Policiamento de Rondas de Ações Intensivas e Ostensivas (CPRaio), o Comando de Policiamento de Choque (CPChoque) e o suporte do Núcleo de Videomonitoramento (Nuvid) da SSPDS.

A SSPDS reafirma a importância do registro do Boletim de Ocorrência (BO) junto à Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE). O documento é fundamental para subsidiar as investigações e direcionar o planejamento de ações preventivas e repressivas contra a criminalidade na região, finaliza.

O que diz a legislação

Além dos furtos, segundo a SSPDS, os templos cearenses são alvo de dano, crime que se configura pelo ato de destruir, inutilizar ou deteriorar uma coisa alheia. Pode ser considerado um dano qualificado se houver:

  • Violência à pessoa ou grave ameaça
  • Emprego de substância inflamável ou explosiva
  • Contra o patrimônio da União, Estado, Município ou empresa concessionária de serviços públicos ou sociedade de economia mista
  • Por motivo egoístico ou com prejuízo considerável para a vítima

Veja abaixo a contagem de casos desse tipo:

Além disso, conforme o Código Penal Brasileiro, o crime de furto consiste na subtração, para si ou para outrem, coisa alheia móvel. A pena é de um a quatro anos de reclusão, e multa. A consequência pode ser aumentada em um terço se o crime for praticado durante o repouso noturno.


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