Os Estados Unidos estão mudando sua forma de agir no mundo, com tarifas, pressão sobre aliados e busca por minerais raros. Isso faz parte de uma briga maior com a China pelo controle da economia global, e o Brasil pode ter uma chance única de se tornar importante nessa nova guerra comercial, mas precisa agir rápido.
Desde que Donald Trump voltou à presidência dos Estados Unidos, em janeiro de 2025, o país passou a tomar decisões que parecem soltas, mas que na verdade fazem parte de um plano maior. Ele impôs tarifas comerciais contra aliados e inimigos, pressionou parceiros históricos, endureceu o discurso com a América Latina, realizou ataques militares no Oriente Médio e entrou de cabeça na disputa por minerais estratégicos. Para o engenheiro Beny Fard, que é analista internacional e escreveu o livro "Tempocracia: O Ocidente em Desvantagem no Século da Paciência", tudo isso está ligado a uma estratégia dos EUA para se reposicionar diante do crescimento da China e da reorganização da economia mundial.
- Os EUA mudaram de tática porque perceberam que estão perdendo tempo para a China, que planeja suas ações para décadas, enquanto as democracias mudam de governo a cada quatro anos.
- Tarifas, pressão sobre aliados e ataques militares são parte de uma mesma estratégia para proteger os interesses americanos e reduzir a dependência de outros países.
- A China domina a produção de terras raras, minerais essenciais para tecnologias como baterias e celulares, e os EUA querem diminuir essa dependência.
- O Brasil tem grandes reservas desses minerais e pode se tornar um fornecedor chave para os EUA, mas precisa agir rápido, pois a janela de oportunidade é de apenas 18 a 24 meses.
- Empresas e investidores estão de olho nessa nova guerra comercial, e a geopolítica virou um fator importante para os negócios.
O livro "Tempocracia" explica que o tempo é um fator decisivo nessa disputa. Enquanto as democracias precisam responder a ciclos eleitorais curtos, regimes como o da China, Rússia e Irã conseguem planejar seu poder, defesa e tecnologia por décadas. Essa diferença de horizonte ajuda a entender a urgência que voltou a marcar a política externa americana, segundo Beny.
A disputa pelo tempo
Para o especialista, a diferença de planejamento entre democracias e regimes autoritários ajuda a explicar por que os EUA passaram a agir de forma mais dura em temas como comércio, energia, segurança e tecnologia. As tarifas, a pressão sobre aliados, as ameaças envolvendo a Groenlândia, a captura do então presidente venezuelano Nicolás Maduro e os ataques ao Irã mostram uma tentativa de reduzir vulnerabilidades e recuperar áreas de influência.
Essa lógica também apareceu em maio, quando o presidente chinês Xi Jinping perguntou a Donald Trump, durante uma visita a Pequim, se os dois países conseguiriam evitar a chamada "Armadilha de Tucídides", uma teoria que diz que o choque entre uma potência estabelecida e outra em ascensão tende a resultar em conflito. Para Beny, a pergunta de Xi foi retórica, mas também funcionou como um recado: a China demonstra conforto em esperar, enquanto o Ocidente percebe que já não tem o mesmo tempo para reagir.
A disputa por recursos estratégicos
Para o autor, a disputa atual deixou de ser apenas sobre ideologia ou poder militar. O centro do conflito envolve energia, rotas comerciais, semicondutores, inteligência artificial, capacidade industrial e acesso a matérias-primas críticas. Entre elas estão as terras raras, um grupo de minerais usado em baterias, carros elétricos, turbinas, sistemas de defesa e equipamentos de alta precisão.
Dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos mostram que a China domina a extração e o processamento global desses minerais, o que tornou a dependência ocidental um ponto sensível. A pandemia, a guerra na Ucrânia e os conflitos no Oriente Médio reforçaram essa percepção ao expor a fragilidade de cadeias produtivas concentradas em poucos países.
Na prática, a globalização baseada apenas em eficiência e menor custo começou a perder espaço para uma lógica de segurança. Conceitos como nearshoring (quando a produção migra para países próximos) e friendshoring (quando se desloca para países politicamente alinhados) passaram a orientar decisões de investimento e políticas industriais. Para Beny, o mundo passou a tratar segurança de abastecimento, estabilidade política e controle de recursos críticos como variáveis tão importantes quanto custo e eficiência.
A oportunidade brasileira
É nesse ponto que o livro "Tempocracia" aproxima a disputa global da realidade brasileira. O Brasil reúne uma das maiores reservas de terras raras do planeta e concentra uma parcela expressiva da produção mundial de nióbio, um mineral estratégico para setores como defesa, energia, carros elétricos e indústria aeroespacial. Para Beny, essa posição pode transformar o país em peça relevante na reorganização das cadeias globais, desde que a vantagem geológica seja convertida em capacidade industrial, processamento, governança e segurança jurídica.
Movimentos recentes mostram que esse interesse já saiu do campo teórico. A compra da mineradora goiana Serra Verde pela americana USA Rare Earth, em uma operação avaliada em US$ 2,8 bilhões, e o aporte de US$ 565 milhões de uma agência de fomento dos Estados Unidos em projetos brasileiros mostram que o país entrou no radar da disputa por cadeias de suprimento mais seguras.
Ainda assim, o autor avalia que a oportunidade tem prazo. Estruturadoras de investimento falam em uma janela de 18 a 24 meses para que o Brasil deixe a condição de promessa mineral e passe a atuar como fornecedor estratégico de fato. Para Beny, o Brasil já teve outras oportunidades de transformar vantagens naturais em posição estratégica, mas nem sempre conseguiu avançar com planejamento e execução. Desta vez, a janela é mais curta, e o país precisa agir rápido para converter potencial mineral em relevância econômica.
Geopolítica entrou na agenda das empresas e de investidores
Beny afirma que escreveu "Tempocracia" para responder a uma pergunta recorrente entre empresários, executivos e investidores: como tomar decisões de longo prazo em um mundo no qual tarifas, juros, conflitos e cadeias produtivas mudam a cada ciclo político. Para ele, tarifas, juros e risco geopolítico não podem ser analisados apenas pela manchete da semana. Esses movimentos fazem parte de uma lógica mais profunda, que conecta poder, tempo, cadeias produtivas e decisões de investimento.
Para o autor, a nova ordem global exige que empresas e países tratem geopolítica como parte da estratégia de negócios. O que está em jogo não é apenas a relação entre Estados Unidos e China, mas a capacidade de cada nação transformar tempo, recursos naturais e posicionamento diplomático em vantagem econômica antes que a janela se feche.






