O que mais um pedreiro, semianalfabeto que cursou até a 4ª série poderia deixar de valioso para seus filhos?
Deito na cama exatamente às 20h04. As crianças já dormem e, no raro silêncio de casa, me perco em pensamentos. Sem querer, meus olhos acabam por fitar a porta na qual uma toalha velha está pendurada.
Nela está bordada Juvenal, nome do meu pai que partiu há quase cinco anos. Suspiro e penso "essa é minha herança". Pode parecer pouco, apenas um pedaço de pano.
- O pai da autora, Juvenal, era pedreiro e estudou apenas até a 4ª série.
- Ele nunca foi violento com as filhas, exceto uma vez, e depois chorou arrependido.
- Seu Juvenal nunca foi machista, incentivando as filhas a estudar, trabalhar e viajar.
- Quando adoeceu, aprendeu a usar o celular para se comunicar com a família.
- Para a autora, a maior herança que ele deixou foi o amor e a quebra do ciclo de violência.
O que mais um pedreiro, semianalfabeto que cursou até a 4ª série poderia deixar de valioso para seus filhos
Eu te digo: amor!
Meu pai é oriundo de uma família religiosa, porém, por mais contraditório que seja, sua infância foi bastante violenta. Ainda criança trabalhava na roça, tinha muitos irmãos e a pobreza era quem punha à mesa. História muito semelhante a de milhares de brasileiros, eu sei.
Só que mesmo sem instrução ou noção alguma sobre educação respeitosa, ele jamais encostou um dedo nas filhas, com exceção de uma vez que bateu na minha irmã adolescente por pura pressão de uma sociedade em que só se é um homem viril se impõe medo.
Depois da "surra" ele sentou no meio-fio e chorou feito criança.
Seu Juvenal também nunca foi machista em nossa criação. Não controlava roupas, não nos impedia de estudar, trabalhar, viajar, namorar, nada. Era ranzinza e rabugento em muitas coisas, mas nunca proibiu de trilharmos nosso próprio caminho.
Quando ficou doente e literalmente perdeu a voz, teve que se render à tecnologia. Pela primeira vez tinha smartphone e WhatsApp. Inteligente que só ele, aprendeu a mexer rapidinho no aparelho e a falta de estudo dele não foi empecilho para que nós entendêssemos cada palavra digitada.
Agora, olhando aquela toalha bem ali e revendo as mensagens que ele mandava quando ainda tinha condições de enxergar a tela do celular, percebo o quão importante foi ele quebrar o ciclo da violência e nos criar com tanto amor.
A toalha velha é dele. As palavras escritas num português precário também.
Mas o que ele deixou em nós foi muito maior.
E talvez essa seja a coisa mais valiosa que um pai pode repassar para um filho: não aquilo que fica sobre uma mesa, dentro de uma gaveta ou registrado em um papel, mas aquilo que passa a fazer parte de quem a gente é.
Sou grata por tudo, por tanto.
Te amo para sempre, paizinho. Daqui até a eternidade.
Feliz Dia dos Pais.


Toalha velha pendurada na porta (Foto: Arquivo Pessoal)





