Pelo medo de perder o outro, o sujeito passa a suportar e deformar uma parte de si.
Faz parte do processo evolutivo humano a adaptação. Graças a uma interação complexa de fatores biológicos, genéticos, cultura, processos de aprendizagem, interações sociais e capacidades psíquicas de nos modificarmos, nos tornamos capazes de utilizar a inteligência para desenvolver novos esquemas e estruturas que nos permitam sobreviver ao desconhecido.
A plasticidade neurológica e a possibilidade de um pensamento simbólico, que permite antecipar problemas e encontrar soluções, relacionam-se com o processo de seleção natural e garantia de evolução da espécie.
Entretanto, a adaptação não significa necessariamente saúde ou bem-estar, pois é possível se adaptar a ambientes hostis ao desenvolver comportamentos que garantem a possibilidade de convívio e sobrevivência diante de um contexto adoecido, que necessitaria de outros tipos de mudança para lidar com o sofrimento.
Assim, podemos nos adaptar graças a todos essas possibilidades humanas, àquilo que deveria ser intolerável: violências, desrespeitos aos direitos inalienáveis, maus-tratos e manipulações, e passar a construir defesas, servindo-se de racionalizações que justifiquem a aceitação e manutenção do que nos faz mal.
Para algumas pessoas, situações que deveriam provocar horror, indignação, repulsa, passam a ser toleradas a partir de uma modificação íntima que passa a justificar e naturalizar o absurdo.
Tal modificação interna busca evitar o conflito, atenuar o que aconteceu e aquilo que é possível suportar. Um dos maiores exemplos pode estar nessa situação: "Essa pessoa me ama, mas ela foi violenta e me machucou profundamente".
Como são expressões afetivas incompatíveis, surge um conflito psíquico. Na tentativa de evitar o sofrimento decorrente de perceber que talvez não seja mais possível sustentar a relação e ter que lidar com a perda e os desdobramentos emocionais disso, o sujeito pode começar a encontrar justificativas que aplacariam a gravidade do dano: "todo mundo erra", "ele fez isso porque estava sofrendo", "no fundo ele não queria me machucar ".
Assim, o que inicialmente era imperdoável e intolerável passa a tornar-se aceitável. Como forma de proteção, o aparelho psíquico tende a buscar diminuir a tensão e a angústia.
Assim, negar a gravidade de algo, racionalizar, deformar aspectos do ocorrido, pode ajudar a pessoa a continuar vinculada a alguém ou a alguma situação que lhe causa sofrimento. Quando rotineiramente o intolerável passa a ser normalizado, pode gerar uma repetição, dada a familiaridade com o que já foi vivido tantas vezes, sustentando uma vida de conflitos, sofrimentos aceitos e silenciados.
Pelo medo de perder o outro, o sujeito passa a suportar e deformar uma parte de si para preservar o vínculo com quem o maltrata. Aos poucos, abre mão da própria espontaneidade e da capacidade de pensar e interpretar a realidade, adaptando-se ao que o outro deseja e negando aquilo que vive e sente para atenuar o sofrimento.
O medo de perder o amor, enfrentar uma realidade dolorosa, deparar-se com a solidão, romper uma relação pode sustentar esse processo.
Assim, poderia ser relevante pensar um pouco sobre: O que eu tenho aceito para continuar sendo desejado pelo outro E por que isso vale o preço da minha saúde Quando foi que aquilo que você jamais aceitou, passou a parecer normal O que você precisou silenciar para que o inadmissível passasse a ser aceitável O que acredito que perderei se deixar de aceitar
Pode ser possível compreender o que o outro faz, porque faz, mas a grande questão é: isso é o que você deseja
*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.


É possível se adaptar a ambientes hostis ao desenvolver comportamentos que garantem a possibilidade de convívio e sobrevivência diante de um contexto adoecido.


