??ºC Tempo Cuiabá-MT Cuiabá-MT

27 de setembro de 2026

pt-br

GERAL

Pequenas vinícolas reinventam o vinho brasileiro

GERAL Vinho 27/09/2026 08:50 Esper Chacur Filho - Jovem Pan jovempan.com.br

O Brasil tem uma nova geração de vinícolas artesanais que estão mudando o cenário do vinho. Com produção em pequena escala, elas exploram terroirs únicos, produzem vinhos premiados e mostram que o país tem muito mais a oferecer para além das grandes marcas. Conheça essas iniciativas que vão do Sul ao Nordeste.

O vinho brasileiro está vivendo um momento muito especial. Ao lado das grandes empresas, que produzem grandes quantidades e estão cada vez mais presentes no Brasil e no exterior, existe um grupo de pequenas vinícolas artesanais. Essas vinícolas têm um papel talvez ainda mais importante: elas ajudam a criar o "gosto nacional" do vinho. Por serem pequenas, podem experimentar, arriscar, resgatar uvas antigas e explorar terroirs pouco conhecidos. Elas produzem vinhos que não precisam seguir as fórmulas do mercado. São, na verdade, laboratórios de identidade.

A história do vinho brasileiro começou de forma caseira e artesanal. A videira chegou ao Brasil no século XVI, mas foi a partir da imigração italiana para o Rio Grande do Sul, em 1875, que a produção de vinho ganhou força econômica. Os primeiros imigrantes faziam vinho em pequenas cantinas de família, usando uvas americanas mais resistentes. Durante muitos anos, esse vinho simples, do dia a dia, ajudou a formar o paladar dos brasileiros. Depois, com a chegada das castas europeias e a modernização tecnológica, principalmente a partir dos anos 1970, o cenário mudou muito. E é nesse contexto que as vinícolas artesanais de hoje têm uma função cultural importante: mostrar que o Brasil tem muitos territórios para produzir vinho, e que a identidade do vinho brasileiro não precisa ser única.

  • A produção de vinho no Brasil começou com imigrantes italianos no Rio Grande do Sul.
  • Pequenas vinícolas buscam identidade própria, longe dos padrões de mercado.
  • Há vinícolas boutique no RS, SC, SP, MG e PE.
  • Vinhos como o Épico VIII e o Anima Thera já ganharam prêmios.
  • Essas vinícolas mostram que o Brasil tem muitos terroirs diferentes.

O berço da produção artesanal: Rio Grande do Sul

No Rio Grande do Sul, a produção boutique é muito diversa. A Serra Gaúcha é a referência histórica, mas a Campanha, a Serra do Sudeste e outras regiões também têm características próprias. Um exemplo é o Atelier Tormentas, que começou em 2002, em Canela, e lançou seu primeiro vinho em 2004. Foi um dos pioneiros dos vinhos artesanais de baixa intervenção, até sem adição de dióxido de enxofre.

O Atelier Tormentas é famoso pela Pinot Noir. Em 2009, produziu o que considera o primeiro Pinot Noir brasileiro no estilo borgonhês, com cachos inteiros, pisa e barricas francesas. Seus vinhos são muito particulares e mostram a diversidade da casta.

Na Campanha, em Bagé, a Estância Paraizo une vinho, pecuária, história e preservação do Pampa. A família Mércio está na região desde o século XVIII. O vinhedo de Syrah é o primeiro plantado no Brasil, reconhecido pelo Ministério da Agricultura. Eles têm rótulos como Camilo, Cova de Toro e Don Thomaz y Victoria.

Também na Campanha, em Dom Pedrito, a Vinícola Guatambu mostra que pequeno não significa simples. Seus vinhos são feitos com uvas próprias, em lotes limitados e garrafas numeradas. Eles usam variedades como Tannat, Cabernet Sauvignon, Tempranillo, Merlot, Chardonnay, Sauvignon Blanc e Pinot Noir. O vinho Épico, um corte de Tannat, Cabernet Sauvignon, Tempranillo e Merlot, foi eleito o melhor tinto do Brasil pelo Guia Adega 2023/24.

Santa Catarina: a altitude como diferencial

Santa Catarina trouxe uma nova história para o vinho brasileiro. A Serra Catarinense, com vinhedos em alta altitude, é ideal para vinhos de clima frio, com grandes variações de temperatura. Em Bom Retiro, a Vinícola Thera começou em 2013 e lançou seus primeiros vinhos em 2015. Hoje, tem vinhedos a cerca de 900 metros de altitude e produz brancos, rosés, tintos e espumantes.

Os espumantes da Thera são destaques. O Thera Auguri Blanc de Blancs Extra Brut ganhou prata no Decanter World Wine Awards de 2025. Já o Anima Thera Brut foi campeão na categoria Espumante Brut Branco Charmat na Grande Prova Vinhos do Brasil de 2025, com 93 pontos e Duplo Ouro. Isso mostra que a região pode fazer espumantes elegantes.

São Paulo: novos horizontes vinícolas

Em São Paulo, a produção de vinho também está se expandindo. Em Ribeirão Preto, a Vinícola Terras Altas começou em 2016, no distrito de Bonfim Paulista. Eles usam solo basáltico e a técnica da dupla poda, que desloca a colheita para o inverno, aproveitando o clima mais ameno. Isso permite fazer vinhos finos.

Seus Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc combinam a intensidade do sol com noites frias e pouca chuva. A experiência mostra que a vitivinicultura paulista pode ir além das regiões tradicionais.

Em Avaré, a Casa Soncini é uma experiência pioneira. Eles cultivam uvas finas em uma região sem tradição vinícola. O projeto mostra que a expansão da viticultura paulista pode acontecer em novos microterritórios. Seus vinhos têm identidade própria, com frescor, equilíbrio e expressão do terroir.

Minas Gerais: vinhos de inverno

Minas Gerais se destaca na viticultura de inverno. Em Jacutinga, na Serra da Mantiqueira, a Vinícola Rio Manso une altitude, clima e paisagem. O projeto tem quatro sócios e faz vinhos ligados à natureza. Eles produzem rótulos como Sombra do Jequitibá (Chardonnay e Viognier), Voo do Tucano (Syrah), Passo da Seriema (Pinot Noir e Cabernet Franc), Rastro da Urutu (Cabernet Franc) e Olhar da Onça (corte de Syrah, Cabernet Franc e Viognier).

O Nordeste surpreendente

No Nordeste, a Vale das Colinas, em Garanhuns-Pernambuco, é um caso surpreendente. Começou em 2013, quando um casal de médicos comprou uma propriedade e, depois de um curso de vinhos, decidiu testar o cultivo de uvas. Com apoio da Embrapa, IPA e universidades, descobriram que variedades como Malbec, Cabernet Sauvignon, Muscat Petit Grain, Sauvignon Blanc e Syrah se adaptam bem.

Hoje, a Vale das Colinas é pioneira na produção de vinhos no Agreste. A produção manual, em pequena escala, mostra que o Nordeste pode ir além das uvas comuns. O projeto continua crescendo, com novas variedades.

Desafios e importância dos pequenos produtores

Todos esses produtores enfrentam dificuldades. Eles não têm o poder de negociação das grandes empresas, não conseguem ocupar prateleiras facilmente, nem fazer grandes campanhas publicitárias. Muitas vezes, o produtor faz tudo: cuida das uvas, faz o vinho, vende, recebe visitas e cuida do relacionamento com o cliente. É um modelo frágil, mas oferece algo raro: singularidade.

O maior mérito dessas vinícolas boutique é ampliar nosso repertório. Elas mostram que o Brasil produz Pinot Noir na Serra do Sudeste, Syrah na Campanha, espumantes de altitude em Santa Catarina, Cabernet Franc em Ribeirão Preto, vinhos de inverno na Mantiqueira e Malbec no Agreste pernambucano. Conhecer essas garrafas é descobrir um país vinícola que ainda está sendo escrito, em pequenas adegas, por pessoas que transformam coragem, território e paixão em vinho. Salut!


Whatsapp image 2026 09 22 at 18.03.11Whatsapp image 2026 09 22 at 15.00.47

Newsletter