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29 de setembro de 2026

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Brasil consolida liderança mundial em exportação de algodão

GERAL Algodão 29/09/2026 14:41 Alessandra Mello | AgFeed agfeed.com.br

O diretor da Anea afirma que a competitividade do algodão brasileiro é a melhor do mundo, com foco em logística e padronização para sustentar o crescimento das vendas externas.

O Brasil se firmou como o maior exportador de algodão do mundo pelo segundo ano consecutivo. De acordo com Gregoire Negre, diretor da Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (Anea), essa posição é definitiva. Em entrevista ao SpeedCast, série do AgFeed em parceria com a AgriConnection, gravada durante o Congresso Brasileiro do Algodão, Negre analisou o cenário internacional e demonstrou otimismo. Ele destacou: A competitividade do algodão brasileiro é a melhor que tem hoje em dia no mundo.

O executivo francês, conhecido no Brasil como Greg, lembrou que a Anea foi criada para incentivar as exportações e promover a fibra brasileira no exterior. Esse esforço resultou em um feito histórico. Antigamente, era sempre os Estados Unidos que eram os principais exportadores mundiais de algodão. E já é o segundo ano consecutivo que o Brasil passa a ser o primeiro, afirmou. E realmente, pelas perspectivas de mercado, o Brasil está aqui para ficar nessa posição e continuar crescendo, porque a competitividade do algodão brasileiro é incomparável com qualquer outro lugar do mundo que produz algodão.

  • Liderança consolidada: O Brasil superou os Estados Unidos como maior exportador de algodão do mundo por dois anos seguidos.
  • Custo competitivo: A Anea destaca que a relação custo-benefício da fibra brasileira é a melhor globalmente, garantindo demanda firme.
  • Logística aprimorada: O Porto de Santos continua sendo o principal polo, mas o Porto de Salvador ganha espaço com linhas diretas.
  • Padronização é prioridade: Melhorar a homogeneidade da fibra é o próximo passo para aumentar a confiança dos compradores internacionais.
  • China decide o próximo passo: O comportamento das compras chinesas e a liberação de estoques estratégicos são cruciais para o mercado global.

Foco em qualidade e padronização

Negre reconhece que, no que se refere à qualidade, sempre tem coisas para melhorar. No entanto, ele destaca que o Brasil já conquistou a confiança dos consumidores finais, especialmente as indústrias de fiação, que se acostumaram ao padrão da fibra brasileira. A visão do executivo é pragmática: o País não precisa necessariamente disputar o segmento premium de luxo.

Ele explica: O mundo não precisa de um só algodão. Muita gente conhece o algodão do Egito, por exemplo, que é um algodão de fibra longa. Mas o mundo não precisa de um volume grande desse algodão muito premium. Negre também cita o algodão Pima, dos Estados Unidos, como outro nome importante nesse nicho específico, voltado para certos tipos de camisetas, onde o Brasil não precisa competir.

O principal ponto de melhoria, segundo Negre, é a padronização. O Brasil precisa melhorar a parte de padronização. Se conseguir nos próximos anos, vai dar ainda mais confiança ao consumidor, a fiação, para usar ainda mais algodão brasileiro, porque aí vai ter mais uma padronização e homogeneização do algodão que será exportado.

A logística que acompanhou o crescimento

Os dados da Anea indicam que o Brasil exportou cerca de 3,2 milhões de toneladas no ano passado. As projeções da entidade apontam para 3,4 milhões de toneladas no próximo ciclo, com potencial de crescimento ainda maior. Para Negre, a logística vinha acompanhando o crescimento da produção, embora antes houvesse temores de gargalos.

Há muito tempo teve preocupação na capacidade do Brasil na logística da exportação, porque o Porto de Santos, quando chegava no pico da safra, chegava a travar, lembra o diretor. O trabalho nas operações de Santos e a abertura de novas rotas mudaram esse cenário. O Porto de Salvador, que antes exigia transporte cabotagem até Santos (encarecendo a operação), agora conta com linhas diretas para os destinos e vem crescendo a cada ano.

A certificação Abralog, realizada em Santos, também auxiliou a padronizar as operações de exportação e deu fluidez ao fluxo. Hoje, Santos ainda responde por mais de 90% das exportações de algodão brasileiro. O Porto de Santos, hoje em dia, a gente pode falar que é a capital da exportação do algodão no mundo, sem dúvida, afirma Negre.

Salvador, por sua vez, já responde por cerca de 5% do volume e pode expandir ainda mais. A gente pode imaginar, sonhando, que 75% do algodão produzido na Bahia poderia ser exportado por Salvador. Isso não é uma coisa totalmente absurda, diz Negre, lembrando que ainda há trabalho a fazer, principalmente na retroárea do porto. O desafio, porém, é que, à medida que a infraestrutura se moderniza, o corredor atrai a concorrência de outras cargas, como frutas, que começam a disputar espaço com o algodão.

Demanda global e a postura da China

No cenário global, Negre faz uma leitura que chama de honesta. Segundo ele, a demanda por algodão ficou estável nos últimos anos, e a fibra natural não conseguiu competir de forma agressiva diante das fibras sintéticas. Enquanto, nos últimos 10 anos, o consumo de fibra sintética mais que duplicou, o do algodão continuou sendo estável, reconhece.

Dentro dessa estabilidade, houve uma mudança decisiva: o crescimento do algodão brasileiro, que assumiu a liderança das exportações. Negre aposta que essa demanda é para continuar. O comportamento das fiações também mudou. Se antes os compradores faziam encomendas com até um ano e meio de antecedência, hoje esse prazo ficou entre 3 e 5 meses.

Essa janela mais curta dificulta a vida das tradings e dos produtores, mas traz um efeito colateral positivo. Mercados como Paquistão, Bangladesh, Turquia e, mais recentemente, Vietnã, cresceram muito comprando principalmente algodão brasileiro. A China segue como o principal destino da fibra brasileira, mas possui regras próprias de importação, funcionando principalmente por sistema de cotas.

Nos últimos meses, Pequim segurou as cotas, trabalhou com a produção nacional e passou a vender o estoque da reserva estratégica do governo a preços que chegaram a quase US$ 1,30 e hoje estão em torno de US$ 1,05, contra os cerca de 90 centavos de dólar do mercado internacional. Essa demanda, a gente está percebendo que alguma hora vai ter que ajustar. Ou o preço mundial tem que subir ou o preço que está na China tem que descer, explica Negre.

Ele acrescenta: A questão é qual algodão a China vai comprar. Será que eles vão comprar mais algodão brasileiro ou um algodão mais americano Isso, a gente sabe, vai ser uma decisão política e não necessariamente uma decisão econômica. A competitividade brasileira volta ao centro do debate: como Turquia, Paquistão e Bangladesh deram preferência total ao algodão brasileiro nas compras recentes, o mercado sabe qual fibra oferece a melhor relação custo-benefício. Resta saber se a geopolítica seguirá a mesma lógica.

Encontro entre líderes e efeitos no mercado

Havia grande expectativa em torno da recente reunião entre os presidentes Donald Trump, dos Estados Unidos, e Xi Jinping, da China. Todos os olhos estavam nessa reunião, diz Negre. Os primeiros efeitos do encontro começaram a ser conhecidos apenas na segunda-feira, 28 de setembro, dias após a gravação da entrevista. A China divulgou um comunicado informando a redução de tarifas para alguns produtos agrícolas americanos, mas nem o algodão nem a soja, dois dos principais itens da pauta exportadora brasileira, foram contemplados.

A leitura da Anea para um cenário como esse é de que a reserva chinesa terá de entrar no mercado para recompor seu estoque estratégico e deve privilegiar o algodão brasileiro. Isso é uma ótima notícia para o mercado brasileiro, porque a China sempre foi um grande parceiro do Brasil em termos de importação e eles foram muito quietos nos últimos meses, afirma.

A consequência prática é dupla. O basis, diferencial entre o preço de Nova York e o do algodão brasileiro, deve se manter, sustentado pela demanda firme. E o gargalo muda de lugar. Agora a dificuldade vai ser como esse algodão vai conseguir sair, porque a pressão vai ficar na parte de logística, alerta Negre. Do jeito que a China geralmente compra, são volumes muito grandes em um período relativamente curto. Então a pressão passa para os nossos parceiros de Santos, que vão ter que trabalhar muito forte para exportar um volume muito grande de algodão brasileiro para a China.


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