Enquanto as queimadas em Mato Grosso do Sul caíram 20,6%, o Pantanal registrou aumento de 42,2% na área atingida pelo fogo em 2026. Dados revelam forte pressão da agropecuária, com expansão de pastagens em 4 décadas e judicialização de ocupações irregulares, ameaçando o ciclo das águas do bioma.
O Pantanal de Mato Grosso do Sul voltou a acender um sinal de alerta. Enquanto a área total atingida pelo fogo no Estado caiu 20,6% em relação ao mesmo período de 2025, o Pantanal seguiu na direção contrária e registrou aumento de 42,2% na extensão queimada.
Entre 1º de janeiro e 1º de outubro de 2026, 124.227 hectares foram atingidos pelo fogo no Pantanal sul-mato-grossense, contra 87.381 hectares no mesmo período do ano passado. O número representa 83,3% de toda a área queimada nos três biomas existentes em Mato Grosso do Sul neste ano.
- A área queimada no Pantanal de MS cresceu 42,2% em 2026, somando 124 mil hectares.
- Enquanto o Pantanal queima, o Cerrado teve queda de 74% e a Mata Atlântica, de 81%.
- As pastagens no Pantanal cresceram de 563 mil para 2,2 milhões de hectares em 40 anos.
- A agropecuária é responsável por mais de 99% da perda de vegetação nativa no bioma.
- 2024 foi o ano mais seco dos últimos 40 anos, com queda de 75% na frequência de alagados.
Pantanal concentra o fogo
Os dados constam do Informativo nº 6 de monitoramento de incêndios florestais da Semadesc, elaborado com informações do Cemtec e do Corpo de Bombeiros Militar.
O contraste chama atenção. Enquanto o Pantanal registrou alta, o Cerrado teve redução de 84.837 para 21.863 hectares queimados, queda de 74,2%. Na Mata Atlântica, a redução chegou a 81,1%, passando de 15.611 para 2.957 hectares.
Monitoramento de eventos
O número de eventos de fogo monitorados também aumentou no Pantanal. Foram 161 registros neste ano, contra 121 no mesmo período de 2025, alta de 33,1%.
No conjunto dos três biomas, porém, os eventos caíram de 885 para 647.
Diferença entre monitoramento e atendimento
Os Bombeiros também registraram redução nos atendimentos de incêndios em vegetação: foram 2.551 ocorrências entre janeiro e o início de outubro, contra 3.920 no mesmo intervalo de 2025.
Os números, entretanto, representam coisas diferentes. Os eventos identificados pelo monitoramento territorial não equivalem aos chamados atendidos pelas equipes dos Bombeiros. Uma área pode registrar fogo sem necessariamente resultar em atendimento operacional da corporação.
Enquanto isso, o Pantanal muda de mãos
O avanço do fogo ocorre em um cenário de transformação da ocupação territorial do Pantanal.
Levantamentos sobre a estrutura fundiária do bioma apontam para uma forte concentração de grandes propriedades. Um cadastro rural consolidado em 2025 identificou 356 grandes propriedades no Pantanal de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, somando cerca de 8,9 milhões de hectares. O levantamento aponta ainda que 11 dessas propriedades ultrapassam 59 mil hectares.
Pressão da pecuária
A presença de grandes propriedades, por si só, não significa irregularidade nem permite estabelecer relação direta com os incêndios. O ponto de atenção está na transformação da paisagem e na forma como o território vem sendo utilizado.
O próprio MapBiomas mostra que a pecuária exerce enorme pressão sobre a vegetação do Pantanal. Em quatro décadas, a área de pastagens no bioma passou de aproximadamente 563 mil hectares, em 1985, para 2,2 milhões de hectares, em 2024, um aumento de cerca de 1,7 milhão de hectares.
Alteração da paisagem
O levantamento também aponta que a agropecuária responde por mais de 99% da perda de vegetação nativa registrada no Pantanal nos últimos sete anos.
Mais de 10 mil hectares autorizados para alteração
A pressão sobre o território também aparece nas autorizações ambientais.
Segundo levantamento publicado pelo Campo Grande News, o Imasul autorizou, entre 2025 e 2026, a substituição de pastagens ou retirada de vegetação em 23 fazendas do Pantanal, em áreas que somam mais de 10 mil hectares. Os proprietários firmaram termos de compensação ambiental para obter as autorizações.
Transformação contínua
O dado não significa que essas áreas tenham sido queimadas ou que exista irregularidade nas autorizações. Mas revela que, mesmo com políticas de conservação, a transformação da paisagem continua ocorrendo dentro do bioma.
Fogo e mudança do uso da terra exigem atenção
O próprio Governo de Mato Grosso do Sul reconhece a agropecuária como principal vetor de desmatamento no Pantanal. O Anuário Estadual de Mudanças Climáticas 2026 aponta a atividade como responsável por 99,5% dos vetores de desmatamento identificados no bioma, com base nos dados do MapBiomas.
Ao mesmo tempo, o MapBiomas identificou uma redução de 48,4% no desmatamento do Pantanal em 2025, que totalizou 12.260 hectares. Apesar da queda, o Pantanal apresentou naquele ano a maior área média por evento de desmatamento entre os biomas brasileiros, com 75 hectares.
Análise integrada do problema
Isso mostra que o problema não pode ser resumido apenas à quantidade anual de hectares desmatados. A escala das propriedades, a localização das áreas alteradas, a conversão de vegetação nativa, a dinâmica das águas e a ocorrência de incêndios precisam ser analisadas conjuntamente.
Justiça já entrou no mapa
Em 2025, a Justiça Federal em Corumbá determinou a desocupação de 6.419,72 hectares de terras da União no Pantanal de Mato Grosso do Sul que, segundo a ação movida pela AGU e pelo MPF, haviam sido ocupados irregularmente e degradados para criação de gado.
A decisão envolveu duas fazendas e três proprietários. Posteriormente, houve determinação de bloqueio de bens no valor total de R$ 212 milhões.
Conflitos judiciais
O caso não permite generalizar a situação para todas as propriedades rurais do Pantanal, mas mostra que conflitos envolvendo ocupação territorial, criação de gado e degradação ambiental já chegaram aos tribunais.
O alerta está no tamanho da transformação
O Pantanal continua sendo um território de produção pecuária, e a atividade rural faz parte da história econômica e cultural da região. Também existem iniciativas voltadas à produção com conservação. O programa Fazenda Pantaneira Sustentável, por exemplo, vem sendo ampliado para propriedades de Mato Grosso do Sul e busca conciliar produtividade e preservação.
O problema é que o bioma atravessa uma combinação delicada: menos água, períodos de seca mais severos, mudanças no uso do solo, expansão das áreas de pastagem e aumento da ocorrência de fogo.
Seca histórica e perda de água
Estudo do MapBiomas apontou que a frequência anual de áreas alagadas no Pantanal caiu 75% entre as primeiras décadas da série histórica e o período mais recente, enquanto 2024 foi identificado como o ano mais seco dos últimos 40 anos.
Conclusão sobre o bioma
Nesse cenário, o crescimento de 42,2% da área queimada em Mato Grosso do Sul deixa de ser apenas uma estatística de incêndio.
É um sinal de que o Pantanal precisa ser observado também pelo que está acontecendo debaixo das chamas: quem ocupa o território, como a vegetação está sendo modificada, onde estão surgindo novas áreas de produção e qual impacto essas transformações podem produzir sobre um bioma que depende diretamente do ciclo das águas.
O fogo pode ser o fenômeno visível.
Mas a transformação do território é uma história muito maior.


Um exemplar macho de onça-pintada, deitado sobre vegetação que pegou fogo no Pantanal Sul, em Miranda



