A startup iBoi, do grupo UP2Tech, reestrutura seus negócios para escalar o projeto de transformar gado em ativo financeiro, lançando brincos inteligentes com parceria da chinesa Quectel e criando redes de conectividade rural para rastrear e financiar milhões de cabeças de gado.
Com receita anual de R$ 1,5 bilhão em 2025 e projeção de R$ 2,3 bilhões para este ano, a UP2Tech é uma das líderes em tecnologia no Brasil. O grupo percebeu uma oportunidade em conectar a população de mais de 240 milhões de bovinos da pecuária nacional.
Desde então, a empresa investe pesado na startup iBoi, que usa brincos eletrônicos para rastrear e monitorar animais, coletando dados de localização e saúde. A tese é que, uma vez conectado, o boi se torna um ativo financeiro, com valor para bancos e fundos de investimento.
- A iBoi lançou a 5ª geração de brincos, com bateria de até 2 anos e sensores de temperatura e passos.
- A parceria com a chinesa Quectel garante o fornecimento de chips e conectividade eSIM.
- O objetivo é conectar 60 mil animais até dezembro e 300 mil no próximo ano.
- A empresa atua na construção de redes de internet rural privadas para onde não há sinal 4G.
- Dados do gado servem de garantia para a emissão de CPR (Certificado de Produto Rural).
Reestruturação Corporativa e Nova Marca
O produto iBoi foi lançado em 2024 e transformado em empresa no ano passado, testando pilotos de operações fiduciárias. Para escalar o negócio, o grupo passou por uma reorganização, agora chamado UP2Group. A UP2Tech mantém a marca de eletrônicos, enquanto a iBoi passa para o guarda-chuva da nova IoTera.
Felipe Antonelle, vice-presidente executivo da IoTera, com passagem por Jacto, Totvs e Solis, lidera a operação. A empresa também oferece projetos e instalação de redes privadas de conectividade rural, essenciais para o funcionamento dos brincos.
Conectividade Rural e Parceria Internacional
Antonelle afirma que apenas com 4G não é possível atingir os 235 milhões de animais brasileiros devido à falta de sinal. A iBoi lançou a quinta geração de brincos com parceria estratégica da chinesa Quectel, uma das maiores fabricantes de comunicação do mundo.
O novo dispositivo usa chipset Qualcomm e eSIM, incluindo sensor de temperatura, contador de passos e bateria com duração de até dois anos. A empresa firmou um pedido de 60 mil peças com a Quectel para atender a demanda reprimida, com meta de 300 mil brincos no próximo ano, sendo 70% a 80% ligados a operações financeiras.
Boi como Ativo Financeiro
A tese da iBoi baseia-se nos dados do IBGE: 245 milhões de animais valendo, em média, R$ 6 mil cada, o que representa R$ 1 trilhão em estoque parado. A empresa vincula os brincos ao SISBOV (sistema oficial de identificação) e compartilha dados com bancos para gerar CPR, título de dívida que usa o animal monitorado como garantia.
Bancos são o principal canal de negócio. O modelo funciona como um produto enterprise: se um cliente pede R$ 20 milhões de crédito para 5 mil bois, a iBoi conecta os animais, libera dados via API e o crédito é autorizado. A empresa ainda estuda um modelo onde bancos pagam pelo fornecimento contínuo de dados.
Próximos Passos e IA no Campo
A plataforma da iBoi oferece gestão completa do rebanho, incluindo peso automático, alertas de fuga, monitoramento de temperatura e cercas virtuais. O modelo é aberto, integrando-se a sistemas como iRancho e ERPs, sem criar concorrência.
Para os próximos anos, a iBoi prepara o IA Box, uma caixa com inteligência artificial embarcada que processa imagens de câmeras localmente, sem depender da nuvem. O equipamento monitora bem-estar animal, identifica animais dominantes que impedem outros de se alimentar e audita compras, verificando a quantidade exata de gado que chega às fazendas.
O grupo busca posicionar a iBoi como a "hard tech habilitadora da pecuária", similar ao papel que Solinftec, Zeus e Perfect Fly tiveram na agricultura. Todo o investimento é financiado com recursos próprios da UP2Tech, que resiste a propostas de sócios externos para manter o controle da construção dessa tecnologia de escala global.


Luiz Fernando Sá



