Uma nova plataforma digital, chamada Radar Bioecon, foi lançada para organizar e facilitar o acesso a 232 políticas públicas de bioeconomia existentes em nove países da região pan-amazônica. A ferramenta busca acabar com a confusão burocrática, facilitar o acesso a crédito para pequenos produtores e cooperativas, e promover a cooperação entre governos locais durante a conferência da ONU sobre biodiversidade.
A Pan-Amazônia, região que abrange nove países na América do Sul, conta com pelo menos 232 políticas, programas e instrumentos públicos relacionados à bioeconomia. De acordo com especialistas, esse potencial produtivo enfrenta grandes desafios, como a falta de integração entre os governos nacionais, a dificuldade de acesso a crédito bancário e outros obstáculos que impedem a implementação efetiva de negócios sustentáveis.
- A nova plataforma Radar Bioecon reúne dados de 232 políticas públicas de bioeconomia de 9 países sul-americanos.
- A ferramenta foi apresentada na COP17, a 17ª Conferência das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica, realizada em Yerevan, na Armênia.
- Estudo do WRI Brasil aponta que apenas 13 produtos da sociobiodiversidade na Amazônia Legal brasileira geram R$ 12 bilhões anuais no PIB.
- Do total de 141 mecanismos de financiamento mapeados na região, apenas 8,5% atendem especificamente à sociobiodiversidade local.
- Objetivo principal: facilitar a comparação de experiências entre países para identificar lacunas e promover a cooperação regional.
Para simplificar a articulação entre os países, a Rede Pan-Amazônica pela Bioeconomia lança nesta quinta-feira (22) o Radar Bioecon. Trata-se de uma plataforma digital que reúne informações detalhadas sobre instrumentos públicos voltados para atividades econômicas baseadas na biodiversidade da região.
Apresentação na Conferência Global da ONU
A nova ferramenta será apresentada oficialmente durante a 17ª Conferência das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica (COP17), evento de grande relevância internacional que ocorre em Yerevan, capital da Armênia.
O levantamento abrange nove países e territórios: Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Suriname e Venezuela.
Tipos de Políticas Mapeadas
O mapeamento inclui desde estratégias nacionais de bioeconomia até mecanismos de crédito, compras públicas, incentivos à produção e instrumentos de apoio a empreendimentos comunitários.
A plataforma permite que usuários consultem e comparem essas iniciativas, com o objetivo de identificar experiências de sucesso que possam ser compartilhadas e oportunidades de cooperação regional.
O potencial econômico da bioeconomia amazônica já se manifesta em atividades ligadas à floresta em pé e aos conhecimentos locais. Na Amazônia Legal brasileira, apenas 13 produtos da sociobiodiversidade contribuem com pelo menos R$ 12 bilhões anuais para o Produto Interno Bruto (PIB), segundo o estudo Nova Economia da Amazônia, liderado pelo WRI Brasil. Entre os exemplos mais conhecidos, estão o açaí e a castanha-do-pará.
Segundo Juliana Simões, co-líder do Grupo de Trabalho de Políticas Públicas da Rede Pan-Amazônica pela Bioeconomia e especialista em políticas públicas e bioeconomia na organização The Nature Conservancy (TNC) Brasil, é necessário garantir que os recursos e programas cheguem efetivamente a cooperativas, associações e empreendimentos locais.
"Para que a bioeconomia se consolide como uma alternativa de desenvolvimento econômico para a Pan-Amazônia, precisamos tratá-la como uma agenda de Estado, com planejamento de longo prazo e continuidade das políticas públicas", defende Juliana.
Desafios da Fragmentação Governamental
O levantamento identificou que as iniciativas estão distribuídas entre diferentes órgãos governamentais e nem sempre são classificadas oficialmente como políticas de bioeconomia.
Conforme o país, aparecem sob denominações como biocomércio, bionegócios, empreendedorismo verde ou economias indígenas e comunitárias.
No Brasil, entre os instrumentos destacados estão o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que abrem mercados para produtores locais. Também está a Política de Garantia de Preços Mínimos para os Produtos da Sociobiodiversidade (PGPMBio), que estabelece preços mínimos para 17 produtos extrativistas e busca reduzir as oscilações na renda dos produtores.
Na Colômbia, o mapeamento aponta mecanismos de apoio a negócios sustentáveis. No Equador, foram identificadas iniciativas de crédito para cooperativas e empreendimentos comunitários.
Para Bruno Castro Lacerda, co-líder do grupo de trabalho da Rede Pan-Amazônica pela Bioeconomia e consultor em bioeconomia para a conservação na organização Conservação Internacional, a comparação entre as políticas ajuda a identificar lacunas e experiências que podem inspirar outros países.
"Essa visão regional é importante para fortalecer a cooperação entre os países e construir políticas que tenham continuidade no longo prazo, contribuindo para consolidar a bioeconomia como uma agenda estratégica de desenvolvimento", afirma.
Barreras no Acesso a Financiamento
O acesso a recursos financeiros é outro obstáculo apontado pelo levantamento. Um estudo da Rede Pan-Amazônica pela Bioeconomia mapeou 141 mecanismos de financiamento voltados à bioeconomia na região. Desse total, apenas 8,5% atendem à sociobiodiversidade.
Embora existam fundos climáticos, linhas de crédito e programas de incentivo, exigências de garantias e procedimentos burocráticos dificultam o acesso de cooperativas, associações e empreendimentos comunitários.
O relatório defende a adaptação desses instrumentos às características da produção amazônica e uma maior integração entre políticas econômicas, produtivas e ambientais.
O Radar Bioecon foi desenvolvido pelo Grupo de Trabalho de Políticas Públicas da Rede Pan-Amazônica pela Bioeconomia. Os usuários poderão sugerir novas políticas ou atualizações dos registros existentes, que passarão por um processo de curadoria. A iniciativa é apresentada como a primeira etapa de um trabalho destinado a identificar lacunas de implementação e oportunidades de integração regional.


© André Villas Bôas/ISA



