A Jovem Pan explica, com especialistas, como funcionam as auditorias e os mecanismos de proteção do sistema eleitoral brasileiro antes e durante a votação. O texto detalha etapas como a verificação de códigos, o Teste de Integridade no dia da eleição e a diferença entre a apuração local e a totalização nacional, desmistificando dúvidas sobre a confiabilidade do voto eletrônico.
Vídeos e mensagens que questionam a segurança das urnas eletrônicas voltam a circular durante as eleições. Para entender o que esses conteúdos afirmam, é importante distinguir as etapas do processo e conhecer os mecanismos usados para verificar os resultados.
As urnas eletrônicas são utilizadas no Brasil desde 1996. Elemar Jr., engenheiro de software e especialista em tecnologia e inteligência artificial, afirma que sistemas críticos precisam permitir a verificação de seu funcionamento. Para ele, a confiabilidade depende de evidências produzidas por diferentes mecanismos de controle.
- O sistema eleitoral brasileiro utiliza urnas eletrônicas desde 1996.
- A segurança é garantida por múltiplas camadas de verificação, não por uma única medida.
- O código-fonte dos sistemas é auditado por entidades externas antes da votação.
- As urnas não possuem conexão com a internet durante o ato de votar.
- Cada seção eleitoral gera um documento público (Boletim de Urna) para checagem.
Auditorias começam antes da votação
A fiscalização não se limita ao dia da eleição. Nas Eleições 2026, os códigos-fonte dos sistemas eleitorais foram abertos para inspeção de entidades fiscalizadoras em outubro de 2025, cerca de um ano antes do pleito. O acesso permaneceu disponível até a cerimônia de assinatura digital e lacração dos sistemas, realizada antes da votação. O TSE previu 40 oportunidades de auditoria ao longo desse ciclo.
O processo também inclui o Teste Público de Segurança, no qual investigadores examinam os sistemas e apresentam planos de teste. Depois, há uma etapa de confirmação das correções feitas a partir dos resultados. Em 2026, esse teste de confirmação foi realizado em maio.
A urna pode ser hackeada
Nenhum sistema tecnológico deve ser tratado como imune a falhas. No caso das urnas, a arquitetura foi desenhada para restringir formas de acesso e reduzir riscos de interferência.
A urna não se conecta à internet durante a votação, o que dificulta ataques à distância. Um hacker não consegue acessar as urnas remotamente, afirma Elemar. A falta de conexão direta, porém, não deve ser apresentada isoladamente como garantia de que qualquer ameaça seria impossível.
Outro mecanismo é a assinatura digital dos sistemas eleitorais. Ela permite verificar se os arquivos correspondem às versões oficiais e se foram alterados após a assinatura. Partidos políticos e outras entidades fiscalizadoras podem acompanhar diferentes etapas do processo, inclusive a inspeção dos sistemas em ambiente controlado.
O que o Teste de Integridade verifica
Um dos procedimentos realizados no dia da eleição é o Teste de Integridade. Urnas selecionadas são levadas a locais de auditoria, onde cédulas preenchidas para o teste são lidas em voz alta e seus votos digitados no equipamento. Ao final, o resultado eletrônico é comparado com a contagem das cédulas. O procedimento é acompanhado por fiscais e entidades fiscalizadoras, e os trabalhos são gravados.
No segundo turno, o teste será realizado nas unidades da Federação onde haverá nova votação. A seleção das urnas ocorre em procedimento público na véspera, e a auditoria acontece no mesmo dia e horário da votação oficial. O Tribunal de Contas da União acompanhará os Testes de Integridade das Eleições 2026.
O teste verifica se, naquelas urnas e nas condições do procedimento, os votos digitados foram registrados e contabilizados corretamente. É uma evidência relevante, mas não permite afirmar que qualquer fraude seria impossível ou que a probabilidade de uma falha seja nula.
Em 2022, o TCU comparou cerca de 5,8 milhões de informações de 4.161 Boletins de Urna do primeiro turno e informou que não encontrou divergências entre os documentos analisados e os dados divulgados. Essa conferência dos boletins é diferente do Teste de Integridade.
Da seção eleitoral à totalização
Antes do início da votação, a urna emite a zerésima, documento que registra que ainda não há votos contabilizados naquela seção. Ao fim do dia, o equipamento apura os votos da seção e imprime o Boletim de Urna (BU), que registra o resultado local.
Uma via do boletim é afixada na entrada da seção. O documento também tem um QR Code, que pode ser lido pelo aplicativo Boletim na Mão, integrado ao e-Título. Assim, qualquer pessoa pode comparar os dados daquele BU com os recebidos e divulgados pela Justiça Eleitoral.
Depois da impressão do BU, a mídia de resultado é encaminhada para transmissão pelos sistemas da Justiça Eleitoral. O resultado de cada seção fica registrado no boletim; depois, os dados são somados para formar a totalização nacional.
Essa diferença ajuda a entender o episódio do primeiro turno em que a visualização nacional dos votos para presidente ficou sem atualização por cerca de 50 minutos, quando indicava 64,81%. Segundo o TSE, a interrupção atingiu um módulo responsável por gerar arquivos para a divulgação na internet. A apuração feita pelas urnas não parou, e os resultados estaduais continuaram disponíveis. A totalização prosseguiu, com uma breve suspensão para verificação dos sistemas.
Elemar avalia que o episódio afetou a apresentação dos dados, não a contagem dos votos nas seções. A ocorrência também reforça a importância de explicar com rapidez e clareza quais etapas foram afetadas quando há uma falha técnica.
O que muda no segundo turno
A votação será neste domingo, 25 de outubro, das 8h às 17h, pelo horário de Brasília. A eleição para presidente ocorrerá em todo o país. Também haverá disputa para governador no Acre, Amazonas, Espírito Santo, Rio Grande do Norte e Tocantins, além do Distrito Federal. Em alguns municípios, a urna poderá incluir eleições suplementares ou plebiscitos.
O eleitorado apto nas Eleições 2026 soma 158.745.463 pessoas, distribuídas por mais de 517 mil seções. Para o pleito deste ano, a Justiça Eleitoral disponibilizou 563.910 urnas: 499.248 destinadas à votação e 64.662 para contingência e reserva técnica. Esses números se referem à estrutura das Eleições 2026 como um todo, não apenas ao segundo turno.


José Cruz/Arquivo/Agência Brasil



