Uma clínica suspeita de fraudar exames e consultas em Nioaque (MS) viu o valor do contrato com a prefeitura disparar de R$ 43 mil para R$ 4,2 milhões. A operação Auditus II aponta que 83% dos procedimentos pagos podem ter sido falsos.
Uma clínica de Nioaque, em Mato Grosso do Sul, está no centro de uma investigação por suspeita de fraudar exames e consultas pagos com dinheiro público. A empresa, que começou com um contrato de R$ 43 mil, viu esse valor saltar para R$ 4,2 milhões um aumento de quase 9.500%. A operação Auditus II, do Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc), foi deflagrada nesta quinta-feira (13) e aponta que 83% dos procedimentos pagos pela prefeitura podem ter sido fantasmas.
O primeiro contrato com a clínica, então chamada Prontomed, foi assinado em agosto de 2018, na gestão do ex-prefeito Valdir Júnior (PSDB). O valor era de R$ 43,2 mil por um ano de serviços. Já no ano seguinte, um novo contrato subiu para R$ 64,8 mil. Depois da reeleição do prefeito, os valores dispararam: um contrato chegou a R$ 1,44 milhão e outro, firmado entre maio de 2022 e maio de 2023, começou em R$ 2,1 milhões e, após um aditivo, quase dobrou para R$ 4,2 milhões.
- O contrato da clínica com a prefeitura aumentou de R$ 43 mil para R$ 4,2 milhões em cinco anos.
- Investigadores apontam que 83% dos exames e consultas pagos podem ter sido fraudados.
- A operação Auditus II também apura um aumento de 1.713% nos gastos com serviços médicos entre 2022 e 2025.
- A ex-secretária de Saúde de Nioaque, Márcia Jara, foi presa durante a operação.
- O esquema pode ter envolvido pagamento de propina a servidores para validar documentos falsos.
De acordo com o Ministério Público, a remuneração da empresa deveria ser feita apenas após a comprovação dos atendimentos realizados. Mas, na prática, documentos falsos teriam sido usados para justificar procedimentos que nunca aconteceram. Servidores públicos teriam sido cooptados com propina para validar as fraudes e liberar os pagamentos.
Dinheiro público para procedimentos que não ocorreram
O esquema teria transformado a estrutura pública de saúde em uma fonte de recursos para particulares. O MP informou que, entre 2022 e 2025, os gastos com serviços médicos aumentaram 1.713%, um número que ajuda a dimensionar o tamanho do problema. Enquanto a população depende de atendimento médico, o dinheiro que deveria financiar serviços efetivos pode ter sido desviado por meio de documentos falsificados.
Ex-secretária de Saúde presa
Na segunda fase da operação, foram cumpridos cinco mandados de prisão e 12 de busca e apreensão em Nioaque, Bonito, Jardim, Bela Vista e Guia Lopes da Laguna. Entre os presos está Márcia Jara, ex-secretária de Saúde de Nioaque. A operação recebeu o nome de Auditus, palavra em latim relacionada à audição um dos procedimentos fraudados seria o teste da orelhinha.
Quem autorizou e quem fiscalizou
A investigação também quer saber quem autorizou os pagamentos, conferiu os documentos e permitiu que os contratos milionários fossem ampliados. A eventual existência de servidores corrompidos reforça a necessidade de investigar toda a cadeia de responsabilidades.
Ex-prefeito e clínica não se manifestaram
A reportagem tentou contato com o ex-prefeito Valdir Júnior e com a Policlínica Rota Bioceânica, mas não obteve resposta. O espaço está aberto para manifestações. As suspeitas serão analisadas no curso das investigações e as responsabilidades serão definidas pela Justiça. Mas os números já levantam um alerta: um contrato que começou em R$ 43 mil chegou a R$ 4,2 milhões enquanto investigadores apontam que a maior parte dos procedimentos pagos pode nunca ter sido realizada.




