Levantamento mostra que, de 2020 até junho de 2026, 2.428 casos de exercício ilegal da medicina e de ciências odontológicas e farmacêuticas chegaram ao Judiciário brasileiro. No Rio, foram 302 processos, número próximo ao de São Paulo, que tem população quase três vezes maior.
A prisão do falso médico Diogo dos Santos Serpa, de 42 anos, há uma semana, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, descortina lacunas de controle e fiscalização que permitem o exercício ilegal da Medicina e expõem pacientes a riscos. O caso chama atenção para a dificuldade de identificar profissionais que atuam sem registro ou com documentação irregular e levanta questionamentos sobre os mecanismos adotados por empresas, órgãos públicos e entidades de classe para impedir que pessoas sem formação ou habilitação trabalhem como médicos.
Um levantamento com dados do Conselho Nacional de Justiça aponta que, de 2020 até junho de 2026, 2.428 casos de exercício ilegal da medicina e de ciências odontológicas e farmacêuticas chegaram ao Judiciário. Só no Estado do Rio, nesse período, foram 302 processos número que se aproxima dos 324 episódios acumulados no mesmo espaço de tempo em São Paulo, que tem população quase três vezes maior.
- Falso médico usava registro de outro profissional e atendeu dezenas de pacientes, incluindo criança com câncer e um idoso com Parkinson.
- Ele cobrava entre R$ 700 e R$ 1 mil por visita e prescreveu medicamentos, solicitou exames e fez encaminhamentos em nome de outro médico.
- Mãe da criança denunciou, mas ninguém acreditou até que ele foi preso durante atendimento pela 63ª DP (Japeri).
- Empresas terceirizadas são responsáveis pela checagem de documentos, mas falham na verificação, segundo investigação.
- Cremerj e CFM disponibilizam canais de denúncia para população, mas fiscalização enfrenta desafios como contratos com terceiros e alta demanda por especialistas.
Registro com outro nome
Antes de ser pego pela polícia, Diogo Serpa, que usava um registro com o nome de Jefferson Sampaio, visitou dezenas de vezes pacientes com quadros graves de saúde. Cintia Santos Matheus, de 36 anos, relata que contratou uma empresa de home care vinculada à Unimed, a Health+ Cuidados, à qual o suposto especialista em CTI pediátrico estava vinculado. A mãe de uma menina diagnosticada no ano passado com um tumor cerebral começou a desconfiar do falso médico quando percebeu as dificuldades dele durante os atendimentos: não sabia manipular equipamentos e não tinha segurança ao receitar remédios.
Vi minha filha ficar doente, busquei denunciar e ninguém acreditou em mim. Meu medo é que outras crianças estejam sofrendo como ela. Ele usou nome falso, visitou minha casa várias vezes, viu minha filha piorar e só sabia cobrar mais dinheiro, diz Cintia, mãe de Maria Eduarda Matheus, de 10 anos, diagnosticada com um tumor cerebral maligno em abril de 2025.
A criança tinha passado por uma sequência de cirurgias e procedimentos e, já em tratamento domiciliar, recebia a visita de Diogo Serpa. Ele foi detido por policiais da 63ª DP (Japeri) durante um atendimento. No momento da prisão, usava crachá e receituário em nome de um profissional de saúde.
A polícia afirma que Diogo acompanhava a menina desde outubro do ano passado. Foram identificados pelo menos seis atendimentos, pelos quais ele cobrava entre R$ 700 e R$ 1 mil por visita. Nesse período, ainda segundo a investigação, ele prescreveu medicamentos, solicitou exames e fez encaminhamentos em nome de outro médico.
Além da criança, Diogo foi negligente com outra vítima: um homem de 71 anos com doença de Parkinson, hidrocefalia e autismo. A denúncia foi registrada na mesma delegacia que determinou a detenção do falsário.
Ao GLOBO, a Unimed Nova Iguaçu disse que a contratação, a seleção e a conferência da documentação dos profissionais vinculados às prestadoras são de responsabilidade exclusiva das empresas terceirizadas, nos termos da relação contratual estabelecida entre as pessoas jurídicas. A empresa ressalta que não manteve qualquer contato com o médico investigado, Diogo dos Santos Serpa, nem com o Dr. Jefferson, e que uma equipe multidisciplinar está avaliando os pacientes atendidos pela prestadora, com prioridade absoluta à segurança e à assistência aos beneficiários.
Por nota, a Health+ Cuidados afirmou: Ratificamos que o nome conhecido por nós é Jefferson Targino Sampaio, profissional devidamente documentado, com a sua inscrição ativa e validada no CRM, conforme checagem da documentação apresentada.
Falsos cirurgiões na mira
Há uma semana, o hospital do Grupo de Saúde Celita Toledo, na Rua Soares Cabral, antiga Clínica Ênio Serra, em Laranjeiras, foi vistoriado por agentes da Polícia Civil, pelo Cremerj e pela Vigilância Sanitária. Há a suspeita de que médicos estrangeiros, ainda alunos de cursos de pós-graduação em outros países, estejam realizando procedimentos cirúrgicos nas unidades do grupo sem a autorização devida para o exercício da medicina no Brasil. Há ainda a possibilidade de estarem fazendo intervenções estéticas em pacientes.
Uma investigação está em andamento na Delegacia do Consumidor (Decon), da Polícia Civil, a cargo do delegado titular Wellington Vieira. Anteontem, a 13ª denúncia envolvendo as três clínicas do grupo chegou à unidade policial.
O cerne da investigação é sobre a atuação de médicos e residentes em um espaço fora do ambiente acadêmico. Destes casos de complicações, duas mortes foram confirmadas. Então, são muitas falhas. A atuação desse residente pode ser um fator complicador, diz Vieira.
São criminosos
Por parte do Cremerj, será feita a análise da legalidade dos registros, a cargo de uma equipe de fiscalização com nove médicos e nove agentes administrativos.
Os falsos médicos são criminosos. Orientamos tanto os médicos que têm dados fraudados quanto a população que se julga atendida por um falso médico que denunciem ao Cremerj e imediatamente à polícia, diz Renata Lima, vice-presidente do Cremerj e diretora do departamento de fiscalização. É muito importante também que as empresas chequem os dados dos contratados. Na página do Conselho, há a foto do profissional e os registros.
Em maio deste ano, o Conselho Federal de Medicina também disponibilizou um serviço para denúncias. Na Plataforma Medicina, médicos podem denunciar profissionais na ilegalidade. Desde então, foram feitos 16 registros.
Os altos números de denúncias do Rio que viraram processos no CNJ relacionados ao exercício ilegal da medicina, da arte dentária e da farmacêutica nos seis últimos anos jogam luz sobre a facilidade de atuação dos falsos profissionais em território fluminense. Quem investiga o problema de perto aponta, entre outras hipóteses, a dificuldade de fiscalização em contratos com terceiros e até a alta demanda por especialistas de determinadas áreas, como as de cirurgia e estética. Leandro Pereira, diretor do Departamento dos Serviços Credenciados (DESC) da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) e representante da entidade no Rio, diz:
É claro que aspectos geográficos e de densidade populacional aumentam o percentual de crimes. Esses fatos ocorrem em todo o país. Há alguns anos, tivemos este problema em cidades fronteiriças do Norte, onde se fazia uma verdadeira captação de pacientes que cruzavam a fronteira em busca de procedimentos estéticos a baixo custo. Talvez o Rio, por ser uma cidade litorânea, com maior exposição estética corporal e famosa por ter acolhido o ilustre cirurgião plástico Ivo Pitanguy, torne-se um atrativo àqueles que querem este marketing em troca de dinheiro do incauto.




