Tenente-coronel da PM de SP, preso por suspeita de feminicídio, afirmou inocência após 8 horas de depoimento. No entanto, três laudos periciais confirmam que a soldado não se suicidou, indicando que foi morta pelo ex-companheiro. A Justiça decidirá se o caso vai a júri popular.
Preso por suspeita de feminicídio contra a soldado Gisele Alves, em fevereiro deste ano, o tenente-coronel da Polícia Militar de São Paulo Geraldo Neto voltou a negar à Justiça as acusações de ter atirado contra a ex-companheira. As declarações foram dadas durante uma audiência, mesmo após um novo laudo complementar reforçar a tese de que Gisele não tirou a própria vida.
- O interrogatório durou mais de 8 horas e foi a última chance do acusado apresentar sua versão.
- Três laudos periciais descartam o suicídio, apontando inconsistências na história do policial.
- Imagens e testemunhas provam que uma árvore de Natal bloqueava a visão do local do crime.
- Mensagens de áudio e texto revelam conflitos violentos e ameaças no relacionamento.
- A defesa pediu liberdade provisória, mas o Ministério Público se opôs, temendo interferência nas provas.
O que dizem as perícias
Um dos pontos contestados pelos peritos é a versão de Neto de que, após ouvir um barulho, saiu do banheiro e encontrou a companheira caída na sala. Segundo a reportagem, uma reprodução simulada indicou que uma árvore de Natal posicionada no ambiente encobria a visão do local onde Gisele estava.
O tenente-coronel afirmou que a árvore já não estava ao lado do sofá quando saiu do banheiro e acusou os investigadores de terem alterado sua posição para incriminá-lo. Imagens das câmeras corporais dos policiais militares que atenderam à ocorrência, no entanto, registraram a árvore intacta na sala.
Um bombeiro que socorreu Gisele também relatou ter visto a árvore no local. Ele afirmou ainda que não havia vestígios de água próximo ao banheiro, contradizendo a versão de Neto, que diz ter saído do banho após ouvir o suposto disparo feito pela soldado.
A reportagem também mostrou uma fotografia feita pelo bombeiro, que registrou a posição da arma junto à mão da vítima, apoiada sobre a coxa. O socorrista disse ter estranhado a cena.
Evidências de agressão e controle
De acordo com a perícia, Gisele teria sido abordada por trás e imobilizada antes de receber um disparo à queima-roupa. Marcas no queixo da policial também foram citadas entre os elementos analisados.
Sangue foi encontrado no banheiro, em uma toalha e na bermuda de Neto. O tenente-coronel contestou as evidências e alega que a cena foi alterada por agentes que entraram no apartamento.
Mensagens indicam conflitos no relacionamento
A investigação também reuniu mensagens que indicam conflitos entre o casal. Gisele relatava a familiares e amigos que queria se separar porque considerava o companheiro possessivo e ciumento.
Em uma mensagem de áudio enviada 12 dias antes de morrer, a soldado afirmou que Neto havia colocado a mão em seu rosto durante uma discussão.
Questionado sobre a mensagem, o policial negou as acusações e disse acreditar que a ex-companheira teria criado a situação para incriminá-lo. Na versão do tenente-coronel, ela produzia as mensagens no celular dele e as enviava para si mesma, simulando uma conversa de conteúdo tóxico para incriminá-lo.
Outras mensagens recuperadas do celular de Gisele mostram discussões sobre o relacionamento e a possibilidade de divórcio. Em uma delas, Neto teria escrito que tratava a mulher com a autoridade de um "macho alfa", esperando que ela fosse obediente e submissa.
Durante o interrogatório, ele também negou ter enviado parte das mensagens apresentadas na audiência. Confirmou, no entanto, ter enviado uma mensagem dizendo que o "sexo" com Gisele "era caro", visto que ele sustentava os gastos da companheira.
Defesa pede liberdade e processo segue
Apesar de Gisele mencionar repetidamente a intenção de se separar, Neto afirmou que ela não desejava realmente o divórcio. Na audiência, o policial disse que ele próprio queria encerrar o relacionamento.
A defesa de Geraldo Neto pediu à Justiça que ele responda ao processo em liberdade. O Ministério Público se manifestou contra a soltura, argumentando que o tenente-coronel poderia usar sua influência para comprometer o julgamento e interferir no depoimento de testemunhas.
O oficial permanece preso preventivamente. Em nota, a defesa afirmou confiar na impronúncia do acusado, decisão que impediria que ele fosse submetido a julgamento pelo Tribunal do Júri.
Cabe agora à Justiça decidir se há elementos suficientes para que Neto seja levado a júri popular pelo feminicídio de Gisele.






