Romeu Zema, candidato do Novo à Presidência, participou da primeira sabatina de O Globo, CBN e Valor e fez críticas ao Judiciário, citou El Salvador como modelo de segurança e defendeu reformas e privatizações.
Estacionado nas pesquisas de intenção de voto, o presidenciável Romeu Zema (Novo) deu ontem uma amostra do arsenal que lhe é característico. Primeiro candidato ao Planalto a participar da série de sabatinas O Globo, CBN e Valor, o ex-governador de Minas Gerais fez críticas ao Judiciário, relatou a experiência de uma viagem a El Salvador para falar de segurança pública e enfileirou comentários sobre a visão que tem da economia brasileira.
Mesmo para quem está acostumado a bater no Supremo Tribunal Federal (STF), os ataques de ontem foram duros. Afinal, disse que alguns ministros deviam ter sido expelidos da Corte depois do envolvimento no caso Master. Parte deles está lá para fazer negócios, acusou o empresário que entrou na política em 2018.
- Zema criticou ministros do STF, dizendo que alguns deveriam ser expelidos.
- Ele citou o caso Master e negócios de Toffoli e Moraes.
- Zema quer usar o modelo de segurança de El Salvador, mas sem cópia.
- Defendeu reforma administrativa e privatizações, exceto da Caixa.
- Sugeriu que motoristas de app sejam MEIs.
Já em outras áreas, como as privatizações, adotou postura menos radical do que costuma imprimir: afirmou que a Caixa Econômica Federal não está na mira, e que a Petrobras e o Banco do Brasil seriam divididos por áreas no planejamento de privatizá-las. Incluiu o BNDES no bolo, mas não disparou que pretende promover as desestatizações de forma açodada.
Embora não tenha em seu plano de governo medidas voltadas para as casas de apostas, Zema passou a colocá-las no centro da construção da imagem eleitoral que quer construir. Tanto que usou, no estúdio do jornal, uma camiseta com os dizeres chega de bets que já tinha vestido no dia anterior.
Outro tema contemporâneo que apareceu nas falas do candidato do Novo foi a situação dos trabalhadores de aplicativo. Zema se disse simpático a enquadrá-los no modelo de microempreendedor individual (MEI), embora tenha alegado que não cabe ao governo impor esse tipo de vínculo, e sim ao mercado.
Em uma hora e meia de sabatina, transmitida ao vivo pela rádio e pelas redes sociais, o mineiro também fez promessas genéricas de redução de juros, colocou a reforma administrativa na lista de prioridades e se classificou como especialista em ajuste fiscal.
Depois da estreia com Romeu Zema, as sabatinas continuam hoje com Ronaldo Caiado (PSD). Amanhã é a vez de Renan Santos (Missão); na sexta-feira, Augusto Cury (Avante) encerra a semana. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) foram convidados, mas ainda não confirmaram presença.
Compõem a bancada de entrevistadores os colunistas Malu Gaspar e Lauro Jardim, do Globo, Maria Cristina Fernandes, do Valor, e o âncora da CBN Milton Jung.
Críticas ao STF
Na linha de manter os ataques ao STF, Zema disse que as revelações do caso Master indicam que tem gente usando a cadeira na Corte para fazer negócios. Episódios como os relacionados a Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, alegou sem mencioná-los nominalmente, motivariam punições severas em outros países.
Em qualquer país civilizado, já teriam sido expelidos, estariam em situação insustentável. E a nossa permissividade ou impunibilidade tem permitido a continuidade afirmou.
Na sabatina, mencionou notícias que remetem aos dois magistrados: o contrato do escritório de advocacia da mulher de Moraes, Viviane Barci, com o Master, e os negócios de Toffoli no Tayayá Aqua Resort, no Paraná. Pressionado, Toffoli deixou a relatoria do caso.
Temos de lembrar que tem joio e tem trigo. Tem gente lá em quem a maioria dos brasileiros confia e tem gente que tem utilizado o Supremo para fazer negócios.
Ainda na seara do Judiciário, deu a entender que algumas investigações são tendenciosas, como o processo ao qual responde por ataques a Gilmar Mendes.
O Judiciário está sendo utilizado nitidamente para fazer política sentenciou.
Flávio Bolsonaro e Master
Sempre propenso a falar da atuação de Daniel Vorcaro, o presidenciável disse que não recuará das críticas a Flávio Bolsonaro (PL) na esteira do caso Master. A estratégia de bater no filho de Jair Bolsonaro levou a discordâncias internas na campanha.
Nos últimos dias, ele acenou a diversas pautas caras à extrema direita, como a anistia aos presos pelo 8 de janeiro. O Novo tem alas que mantêm alianças com o PL.
De forma alguma (vou recuar). Continuo, não tiro nada daquilo que disse até hoje, está postado até hoje nas redes sociais. Não mudo em nada garantiu, e reforçou que os valores arrecadados pelo filme Dark Horse não parecem condizentes com a produção.
Zema também buscou se afastar das acusações de envolvimento da Cemig nas investigações sobre o banco e do fato de o pai de Vorcaro ter feito doação ao Novo em 2022.
Pedi para o atual governador que investigue a fundo e que a receita apure a sonegação. Sou totalmente favorável. Não quero que ninguém fique protegido.
Segurança e El Salvador
Assim como fez na véspera, Zema escolheu El Salvador, onde Nayib Bukele colocou em curso um regime de exceção para enfrentar a criminalidade, como modelo a ser observado, apesar de ter negado que queira fazer uma cópia no Brasil.
Eu fui lá conversar com pessoas que viviam em comunidades controladas pelo crime. Conversei com umas 40 pessoas. Todos disseram que a vida melhorou muito contou. O que quero no Brasil não é cópia de El Salvador.
A inspiração parece se dar de forma genérica, já que negou que queira imprimir no país o modelo de exceção que restringiu o habeas corpus e empreendeu prisões em massa. Ao se esquivar de dizer o que replicaria, voltou a criticar o Judiciário ao ecoar a ideia de que a polícia prende, a Justiça solta.
De acordo com ele, mudanças na legislação são necessárias, e as propostas dos governadores não foram incluídas na PEC da Segurança.
Tenho certeza que 99% dos brasileiros concordam: alguém que cometeu delito pela terceira vez não pode mais ser liberado na audiência de custódia. Quero que na terceira vez ele fique com prisão preventiva decretada apontou.
Pauta econômica e administrativa
Instado a falar sobre ajuste fiscal, o candidato se classificou como especialista em ajuste ao citar o que fez em Minas. Também defendeu que a idade mínima para aposentadoria acompanhe a expectativa de vida.
Vamos dizer que a expectativa de vida do brasileiro aumentou em três anos. Vai ter um ajuste do tempo de contribuição de acordo com essa maior expectativa de vida explicou.
Zema associou o endividamento das famílias à alta taxa de juros, apesar de a promessa de diminuir a Selic ter sido feita de forma genérica. Hoje, a taxa está em 14% ao ano.
Isso está fazendo com que os brasileiros fiquem cada vez mais endividados. Eu venho do varejo. Oito em cada dez brasileiros fazem financiado. Se os juros estão altos, significa prestação alta.
Entre as medidas que quer fazer avançar, deu prioridade à reforma administrativa.
Reforma administrativa é fundamental. Está lá há mais de dez anos. Parece que nenhum presidente quis enfrentar isso disse.
Questionado sobre o aumento da dívida de Minas, o candidato classificou o volume como "impagável" por causa do sistema de cobrança, e disse que herdou um estado que não honrava compromissos com servidores.
No entanto, não culpou nominalmente o ex-governador Fernando Pimentel pela crise financeira.
Funcionário em Minas não recebia o décimo terceiro salário. Era justo pagar a dívida com a União e a aposentada não receber salário em dia
Uma das críticas a Zema é o fato de só ter a arrumação da casa como narrativa. A falta de uma marca mais robusta nos quase oito anos de governo fica evidente na campanha.
A dívida era de cerca de R$ 120 bilhões quando Zema assumiu, e hoje passa de R$ 200 bilhões. A pauta é protagonista da eleição mineira.
Entregadores de app
Outro ponto foi a situação dos trabalhadores de aplicativo. Para Zema, os motoristas deveriam ser, no mínimo, microempreendedores individuais (MEI). Assim, teriam contribuição previdenciária.
Apesar da defesa, alegou que cabe ao mercado resolver isso. Observou que há resistência ao modelo, associada à relutância em pagar impostos.
O motivo é que está todo mundo tão apertado que às vezes até pagar R$ 60 por mês a pessoa vê como um ônus relatou. Mas quando a taxa de juros cair, a vida não vai ficar tão difícil.
Privatizações
As privatizações são uma pauta central do Novo, e o programa de governo fala em "privatizar tudo". Segundo Zema, sua gestão dividiria instituições como Banco do Brasil e Petrobras por áreas para viabilizar a transferência. O BNDES também entra.
A despeito de ter negado ontem a intenção de privatizar a Caixa, seu conselheiro econômico Carlos da Costa sentenciou recentemente que Zema o faria se eleito.
Os recursos das privatizações, de acordo com o presidenciável, seriam usados "para melhorar a vida do brasileiro".
Também trouxe à tona o nome de Daniel Vorcaro.
Vamos pegar o que aconteceu recentemente. Quem fez negócio com ele Fundos de pensão estatais. O setor público é capturado por esses negócios disse, antes de defender o andamento da investigação.




