Uma mãe espera o ônibus sob o calor, uma estudante busca bolsa de estudos. Enquanto isso, novas senadoras eleitas podem mudar essas histórias com políticas públicas. Neste artigo, a urbanista Helena Degreas reflete sobre a luta pelos direitos femininos, as conquistas e os desafios que ainda existem no Brasil.
Na coluna passada, escrevi sobre a necessidade de ampliar a representação política das mulheres. Votei em mulheres, não sem antes examinar suas trajetórias, o que fizeram, o que defenderam e de que maneira suas decisões melhoraram a vida de quem depende delas. Não basta um nome feminino na urna.
Acordei com a notícia de que doze mulheres haviam sido eleitas para o Senado, um recorde, uma conquista desde a redemocratização. Preparei o café, lavei a louça, passeei a Ricotinha e abri o computador. Tenho essa mania de considerar perfeitamente normal que uma mulher estude, exerça uma profissão, receba pelo próprio trabalho e decida o que fazer da vida. Difícil crer que, ainda em 2026, haja quem discuta os limites dessa liberdade. Será que deveria telefonar ao meu pai ou a algum outro homem da família antes de tomar decisões Meu pai já morreu e seus conselhos, confesso, me fazem falta. Dizia que a única coisa que ninguém nos tira é o conhecimento adquirido nos estudos. Ideias progressistas de um imigrante que chegou ao Brasil nos anos 1960. Mas, voltando à autorização, poderia consultar um irmão, tio, sobrinho, filho ou neto. Quem sabe o vizinho
- 12 mulheres foram eleitas para o Senado, recorde desde a redemocratização.
- A colunista rebate a ideia de que mulheres precisam de autorização de homens para decidir sobre suas vidas.
- Muitas mulheres enfrentam dificuldades para conciliar trabalho e cuidado dos filhos.
- Algumas senadoras podem apoiar políticas que limitam os direitos das mulheres.
- Uma estudante busca bolsa para continuar sua pesquisa, mostrando a importância da educação.
Antes das nove, já havia respondido as mensagens, lido os jornais, consultado uma pesquisa e preparado parte de uma aula. Sou urbanista, pesquisadora, ativista social, mãe, avó e, até onde sei, um ser humano vivendo no século XXI. Passei boa parte da vida nas universidades e continuo por lá. Sempre gostei de livros, embora reconheça que uma opinião publicada nas redes sociais, acompanhada da fotografia de alguém estampando com a cara e voz da convicção, pode circular muito mais depressa, e ter impacto maior de opinião do que uma pesquisa que levou anos para ser concluída.
Saí para resolver algumas coisas. Dirigi meu carro, usei meu cartão bancário, assinei documentos. Nenhum homem da família precisou autorizar minhas escolhas. Uma manhã igual a tantas outras.
A realidade das mulheres nas ruas
No caminho, encontrei uma mulher com uma criança pequena pela mão. Esperavam o ônibus num calor infernal, numa cidade construída à revelia do próprio clima. Pensei em quem precisa trabalhar e não encontra vaga na creche, em quem consegue matricular a criança na escola, mas não tem com quem deixá-la depois das aulas. Pagar uma babá Pedir à vizinha Faltar ao trabalho e arriscar o emprego A criança precisa de cuidados, a mãe precisa de salário e o relógio não espera por nenhuma das duas. Embora o direito ao trabalho exista, seu exercício depende de condições materiais que não são iguais para todas.
Tenho condições de resolver boa parte dessas dificuldades sem depender diariamente dos serviços públicos. Sou branca, tive acesso à universidade e construí uma carreira a duras penas. Nem por isso passei ilesa pelos ambientes profissionais tóxicos.
Lembro-me das reuniões em que mulheres loiras, entre elas eu, eram chamadas de burras com uma naturalidade espantosa. Os homens riam acompanhados de mulheres também que riam quer por convicção quer por constrangimento. Não podiam perder o emprego. Esperava-se que fôssemos competentes, agradáveis, prestativas e capazes de receber uma grosseria sem estragar o ambiente. Havia ainda as exigências de aparência, que variavam conforme o departamento. Trabalhei para conquistar meu espaço e procurei abrir caminho para outras mulheres, embora reconheça a distância entre minhas oportunidades e as de tantas brasileiras negras, pobres e mães solo.
Políticas públicas e os direitos das mulheres
Mais tarde, li sobre cotas raciais nas universidades, programas de assistência social, financiamento do SUS e direitos reprodutivos. Pensei em quantas brasileiras dependem dessas políticas para estudar, trabalhar, cuidar dos filhos e decidir sobre a própria vida. Algumas parlamentares defendem sua ampliação; outras propõem restrições. Divergir é legítimo. Ainda assim, causa-me estranheza ver mulheres chegarem a espaços de poder que durante séculos lhes foram negados e, uma vez lá, defenderem medidas que podem limitar as oportunidades de outras mulheres. O direito de ter direitos não deveria terminar na mulher que conseguiu chegar primeiro.
Lembrei-me das meninas vítimas de violência sexual, cujas histórias chegam pelos jornais acompanhadas de decisões judiciais, condenações morais ou pautadas em argumentos religiosos. Para uma criança de onze anos, estuprada pelo pai ou por outro adulto dentro de casa, essas decisões interrompem e destroem a infância. Há quem defenda que ela seja obrigada a levar adiante a gravidez, tenha o filho e cuide dele com zelo e dedicação maternal. Aos onze anos Que proteção à infância existe numa proposta dessas
À tarde, uma estudante me procurou para conversar sobre sua pesquisa. Falamos dos livros, das dificuldades e de sua vontade de continuar estudando. Sugeri que procurássemos uma bolsa. Acredito que a educação ofereça instrumentos para compreender o mundo e interferir nele. Não garante sucesso, nem torna ninguém necessariamente mais justo. Conheço pessoas muito instruídas que defendem ideias das quais discordo profundamente. Convivo com elas.
Desafios que as novas gerações enfrentam
Olhei para a estudante e me lembrei de quando comecei a trabalhar. Pensei nos homens que ainda encontrará pelo caminho, dispostos a explicar-lhe assuntos que ela conhece melhor do que eles. Nas reuniões em que poderá apresentar uma ideia, ser ignorada e, minutos depois, ouvir a mesma proposta receber aplausos quando repetida por um colega homem. E nos adjetivos reservados às mulheres que dizem não: difícil, desequilibrada, mal-amada. Conheço bem esse vocabulário.
Gostaria que pudesse desenvolver suas capacidades, escolher seus caminhos, receber pelo próprio trabalho e decidir sobre seu corpo. Que dedicasse os próximos anos à pesquisa e à vida que escolhesse, sem precisar convencer os outros de que tem direito a tudo isso. Minha geração já gastou bastante tempo nessas discussões. Retrocessos, não consigo entender.
À noite, voltei aos resultados eleitorais. Pensei nas mulheres que enfrentaram portas fechadas para que outras pudessem chegar ao Senado. Pensei também na estudante, que ainda começava sua carreira. As posições políticas das eleitas não são iguais, tampouco serão suas decisões. Pretendo acompanhar o que cada uma fará com o mandato e quais serão as implicações de suas ações sobre as cidades e sobre as mulheres sem voz pública.
Desliguei o computador. Amanhã tenho uma aula para preparar, outra coluna para escrever e uma palestra sobre políticas públicas urbanas e o direito das crianças de circular com segurança pela cidade.





