Pesquisadores da UFRJ descobriram que mulheres que fizeram cesariana têm 45% mais chances de desenvolver um tipo raro de câncer na placenta, chamado neoplasia trofoblástica gestacional. O estudo é importante para o Brasil, que é um dos países com maior taxa de cesarianas no mundo.
Pessoas que fizeram cesariana têm 45% mais chances de desenvolver um tipo raro de câncer que surge a partir das células da placenta e cresce no útero, chamado neoplasia trofoblástica gestacional. Essa é a conclusão de um estudo feito por pesquisadores da Maternidade Escola da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
- A cesariana aumenta em 45% o risco de um câncer raro de placenta.
- O Brasil tem uma taxa de cesarianas de 55%, muito acima dos 15% recomendados pela OMS.
- O estudo analisou dados de quase 3 mil pacientes ao longo de 20 anos.
- Reduzir a taxa de cesarianas para 35% poderia evitar 177 casos de câncer por ano.
- A cicatriz da cesariana pode ser uma porta de entrada para as células da mola gestacional.
A neoplasia trofoblástica é a consequência mais grave de uma doença chamada mola gestacional, que acontece quando a fertilização entre o óvulo e o espermatozoide dá errado e forma uma estrutura anormal na placenta, às vezes sem feto (mola completa) ou com um feto que não sobrevive (mola parcial).
Em até 20% dos casos, as células da mola gestacional ficam no útero e viram câncer de placenta. No Brasil, a mola gestacional ocorre em uma a cada 200 a 400 gestantes, com cerca de 2,9 mil casos de câncer por ano.
Já se sabia que o risco de câncer é maior em casos de mola completa, em pacientes com mais de 40 anos, em mulheres com níveis muito altos do hormônio HCG ou que já tiveram episódios anteriores de mola completa e cistos nos ovários.
Referência internacional
A ideia de investigar a relação entre as cesarianas e o câncer de placenta surgiu após a publicação de um estudo semelhante feito na Coreia do Sul, mas com poucas pacientes. A líder da pesquisa brasileira, Gabriela Paiva, explica que a Maternidade Escola da UFRJ, ligada ao SUS, abriga o Ambulatório de Doença Trofoblástica Gestacional, terceiro maior centro de pesquisa e atendimento de mola do mundo. Toda semana, cerca de 80 pacientes com mola são atendidas na unidade.
Com a quantidade de pacientes que a gente tem aqui, a gente pensou que poderia fazer essa avaliação trazendo um resultado muito mais preciso. Considerando também a grande quantidade de cesarianas que é feita no Brasil, complementa Gabriela, que também atua como médica no ambulatório.
A pesquisa foi feita em parceria com o Centro de Doença Trofoblástica da Nova Inglaterra, ligado à Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Foram analisados dados de 2.904 pacientes atendidas lá e no hospital da UFRJ, entre 2002 e 2022, sendo 83,9% sem histórico de cesariana e 468 com ao menos uma cirurgia do tipo.
Entre as mulheres que já tinham sido submetidas à cesariana, 26,5% desenvolveram o câncer, contra 20,8% daquelas que não tinham esse histórico. Todos os outros fatores que pudessem contribuir para esse resultado foram controlados, mostrando que a cirurgia prévia aumenta o risco de forma independente.
A principal hipótese dos pesquisadores é que o corte do útero, feito durante a cesariana, desregule o sistema imunológico da mulher, além de forçar o remodelamento dos vasos sanguíneos e causar fibrose.
A cicatriz da cesárea é uma área frágil dentro do útero. Então, é como se fosse uma porta de entrada para a mola, que acaba tendo mais poder de invasão para entrar no útero e levar ao câncer, complementa Gabriela Paiva, que realizou a pesquisa durante o seu doutorado.
Contexto brasileiro
O coordenador do ambulatório e orientador do trabalho, Antônio Braga, destaca a importância desse achado no contexto do Brasil, que lidera as taxas mundiais de cesárea. Enquanto a Organização Mundial da Saúde recomenda que 15% dos nascimentos ocorram por via cirúrgica, essa proporção chega a 55% no país.
Esse é um tema que merece ser tratado como mais um risco agregado para as mulheres submetidas a cesarianas. Cesariana é uma cirurgia salvadora de vidas, muito importante para garantir a segurança da mãe e do bebê, mas ela deve ser feita de forma consciente, acrescenta.
A neoplasia trofoblástica gestacional pós-molar também deve ser considerada uma possível consequência de longo prazo do parto cesáreo prévio, ao lado de outros problemas já conhecidos, como risco de ruptura uterina, do espectro da placenta acreta, de parto prematuro e de outras complicações, defendem os autores.
O estudo estima ainda que uma redução de 20 pontos percentuais na taxa de cesarianas do país, chegando a 35%, poderia evitar aproximadamente 177 casos de câncer por ano, uma redução de 6,1% na incidência anual estimada da doença.
Apesar da força da correlação, os pesquisadores não recomendam que as mulheres com histórico de cesariana passem por um tratamento mais agressivo caso desenvolvam a neoplasia. A principal recomendação é que elas sejam acompanhadas com maior vigilância desde o diagnóstico da mola.
Atualmente, o tratamento nos casos de câncer envolve o esvaziamento do útero por aspiração, sessões de quimioterapia e o monitoramento do hormônio HCG, produzido durante a gravidez e também nos casos de mola. A histerectomia, cirurgia de retirada do útero, só é recomendada em casos específicos.






