Novo estudo revela que o melanoma não está apenas na pele, mas também pode afetar olhos e mucosas, exigindo atenção especial ao diagnóstico precoce
Um novo alerta médico chama a atenção para um fato pouco conhecido: o melanoma, tipo comum de câncer de pele, também pode surgir em outras partes do corpo, como nos olhos e em áreas internas como boca e genitais. A Fundação do Câncer explica que essa doença nasce nas células que produzem a melanina, substância responsável pela cor da pele, mas não se limita à superfície do corpo.
Embora seja raro, esse tipo de câncer fora da pele é considerado mais perigoso. Ele tem maior chance de se espalhar para outros órgãos, causando o que os médicos chamam de metástase, o que dificulta o tratamento e aumenta o risco de morte.
Principais pontos do estudo
- O melanoma extracutâneo pode aparecer nos olhos, boca e órgãos reprodutivos.
- No Brasil, a cirurgia é o principal tratamento inicial, realizada em quase 85% dos casos.
- Novas medicações chamadas imunoterapias aumentaram a cura para até 70% dos casos avançados.
- O custo elevado dos remédios ainda limita o acesso pleno no Sistema Único de Saúde (SUS).
- Os especialistas pedem consultas regulares, já que a doença ocular pode não dar sintomas iniciais.
A 12ª edição do boletim Análises e Tendências em Câncer, lançado neste mês pela fundação, focou nesse tema. A publicação, intitulada Melanoma: nem sempre na pele, reforça que entender onde a doença ataca ajuda a preveni-la. O material alerta que salvar vidas exige não apenas tratar, mas diagnosticar cedo, planejar os serviços de saúde e criar políticas públicas eficazes.
Todo ano, essas análises mostram como o câncer se comporta no país. O objetivo é conscientizar a população e orientar os médicos sobre a importância da prevenção. Os números vêm do sistema info.oncollect, que coleta e organiza dados de hospitais de oncologia em todo o território nacional.
Como enfrentar o diagnóstico
Para lidar com essa doença no Brasil, é preciso unir prevenção, detecção rápida e boa qualidade nos registros médicos. Além disso, é necessário garantir que os pacientes tenham acesso ao tratamento na hora certa. O médico Alfredo Scaff, consultor da Fundação do Câncer e coordenador do estudo, destaca que isso depende da colaboração entre médicos de várias áreas, como dermatologistas e oftalmologistas.
Controlar o câncer é diagnosticar cedo e tratar na hora certa para que as pessoas se currem. O câncer tem cura quando tratado no início, afirma Scaff. Pelo sistema público, o tratamento padrão começa com a cirurgia para remover o tumor e os gânglios linfáticos próximos.
Entre 2014 e 2023, a cirurgia inicial fez parte de 84,7% dos tratamentos de melanoma de pele em todo o país. As regiões Sudeste e Norte mostraram diferenças importantes: o Sudeste teve 89,6% dos casos tratados por cirurgia, enquanto o Norte teve apenas 64,4%. Isso indica que o Norte enfrenta mais dificuldades no acesso inicial.
Quanto ao deslocamento de pacientes, a maioria se tratou na própria região. No entanto, no Centro-Oeste, 20,2% dos pacientes precisaram viajar para o tratamento. Essa alta necessidade de deslocamento sinaliza um grande problema no acesso a especialistas na região.
Novos tratamentos e barreiras
O Instituto Nacional de Câncer (Inca) aponta que a quimioterapia ainda é muito usada. Mas, desde 2016, o Brasil aprovou o uso de novos medicamentos chamados anti-PD-1, que incluem nivolumabe e pembrolizumabe. Recentemente, outro remédio específico para olhos chegou ao país. Em 2020, a Conitec incluiu essas imunoterapias no SUS para casos avançados.
Alfredo Scaff celebra essa novidade como revolucionária. A melhora dos pacientes saltou de menos de 10% na quimioterapia para até 70% na imunoterapia. É um marco na história do tratamento, comemora. Esses avanços aumentaram muito a sobrevida de quem está com a doença mais agressiva.
No entanto, há limites. O coordenador do Inca, Gélcio Mendes, avisa que para o tumor fora da pele, as provas de eficácia desses novos remédios são poucas. Em muitos casos, eles não têm efeito, explica. O Inca reforça que novas tecnologias se somam às antigas e não substituem tudo. É preciso equilibrar o custo e o benefício real para o paciente.
O problema do alto custo
Apesar dos avanços, o preço desses remédios continua alto, o que dificulta o acesso no SUS. Para resolver isso, Alfredo Scaff sugere que o governo faça compras em larga escala, o que barateia os produtos. Ele propõe unir essa ação a uma política de produção nacional de remédios, chamada Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS).
Usando o poder de compra do SUS para negociar e produzir no país, conseguimos baixar custos e ter garantia de abastecimento, diz o consultor. O coordenador do Inca admite a limitação atual. Gélcio Mendes explica que novas regras estão sendo criadas para ampliar o acesso a esses agentes no sistema público, seguindo os critérios da Conitec.
Entretanto, a logística ainda é um desafio. O processo de entrega dos remédios aos hospitais está sendo discutido. A forma como a compra e o repasse serão feitos ainda depende de acordos entre gestores. Estamos acompanhando essa construção, afirma Scaff. O envio efetivo ao centros de alta complexidade ainda está em negociação entre os estados e a União.
Números do câncer fora da pele
Um estudo que analisou 42.255 casos mostrou que 92,2% foram na pele. Apenas 5,7% foram nos olhos e 2,5% em mucosas. Entre 1990 e 2021, houve 1.324 novos casos de melanoma extrapele, sendo a maior parte em mulheres (801 casos) e homens (523 casos).
O olho foi o local mais comum (75% dos casos), seguido pelos órgãos genitais (12,8%) e intestinos (8,2%). Entre os casos oculares, 55% foram em mulheres. A Fundação do Câncer alerta que o tumor no olho muitas vezes não causa dor ou sintomas visíveis no início, sendo descoberto só nas consultas de rotina.
Os sinais podem ser confusos com outros problemas de visão, como visão embaçada, flashes de luz ou manchas. Por isso, diagnosticar cedo é essencial para evitar que a doença progrida.
Dados sobre o melanoma de pele
A luz do sol é o maior risco para o câncer de pele. O perigo é maior para pessoas de pele clara. Embora o câncer de pele seja o mais comum no Brasil, o melanoma representa apenas 4% desses casos. Porém, ele é o mais agressivo e tem grande poder de se espalhar.
De 1990 a 2021, foram 30.614 novos casos de melanoma de pele. A maioria foi em mulheres (51,3%). Homens apresentaram mais tumores em orelha, couro cabeludo e tronco, enquanto mulheres têm mais casos na face e pernas.
Mortalidade e projeções
Em 2023, 2.047 pessoas morreram de melanoma de pele no Brasil. A média de óbitos para o período de 2020 a 2024 foi de seis por 1 milhão de habitantes, sendo mais homens mortos que mulheres. A região Sul teve as maiores taxas de casos novos, mais que o dobro da média do país, ocupando o 7º lugar entre os cânceres em mulheres.
O Inca projeta 9.360 novos casos de melanoma para este ano. O risco é maior para homens. Esses números servem para que os governos organizem melhor a saúde pública e ampliem o atendimento nos hospitais para lidar com a demanda.






