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19 de agosto de 2026

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O demônio no espelho: arte, mito e as sombras do observador

VARIEDADES 19/08/2026 16:14
Diario Flip

Há obras que repousam silenciosamente diante do olhar. Outras, porém, devolvem o olhar. São estas que frequentemente inquietam. 

Quando ultrapassa sua função ornamental, a arte torna-se território de revelação. Toca regiões que antecedem a razão, atravessa memórias e alcança aquilo que, muitas vezes, preferimos ocultar de nós mesmos. 

Talvez por isso algumas obras despertem encantamento, enquanto outras provoquem medo, repulsa ou hostilidade. 

Tenho observado as reações suscitadas por figuras que integram meu universo artístico — o Minhocão, as sereias, a Mãe d’Água, a deusa Vereda e outros seres provenientes do imaginário das águas e da tradição ribeirinha do São Francisco. Para alguns, são poesia materializada, memória, ancestralidade e pertencimento. Para outros, estranhamente, tornam-se representações demoníacas. 

E então uma pergunta se impõe: quando alguém vê um demônio onde existe um mito, de onde, afinal, veio esse demônio? 

Certamente não nasceu do ferro, da argila, da pedra ou das mãos do artista. Talvez tenha vindo do olhar. E nenhum olhar é inteiramente inocente.  

O que vemos também nos revela.  

Não contemplamos o mundo a partir de um vazio. Olhamos através daquilo que somos. 

Nossa percepção é atravessada por crenças, memórias, desejos, medos e preconceitos. Por isso, duas pessoas podem estar diante da mesma obra e encontrar nela universos absolutamente distintos. 

Uma criança olha uma sereia e encontra encantamento. Um pescador reconhece as histórias ouvidas à margem do rio. Um estudioso percebe a permanência ancestral do mito. Um artista encontra forma, movimento e metáfora.  

Outra pessoa vê o demônio. 

A sereia não mudou. Mudou o universo daquele que a contempla. 

Carl Gustav Jung encontrou na sombra uma das dimensões fundamentais da psique: nela permanecem aspectos de nós mesmos que recusamos, reprimimos ou ainda desconhecemos. Mas aquilo que não reconhecemos interiormente não desaparece. Muitas vezes, retorna sob a forma de projeção. 

Aquilo que não aceito em mim posso passar a enxergar no outro — ou no mundo — com extraordinária nitidez. 

Talvez essa seja uma das grandes ironias humanas: passamos, por vezes, a combater exteriormente aquilo que não tivemos coragem de encontrar ou enfrentar dentro de nós. 

Quando desejos, medos, impulsos ou contradições não cabem na identidade moral que construímos, o mal precisa encontrar outro endereço. E então ele passa a habitar o diferente, o corpo, a sensualidade, a religião do outro, o artista, a serpente, a sereia, o monstro do rio. 

Quanto mais rígidas nossas certezas, mais ameaçador pode parecer aquilo que não conseguimos compreender. 

O mito não é mentira. Uma sociedade culturalmente empobrecida corre o risco de confundir mito com falsidade. 

O mito, entretanto, constitui uma das linguagens mais antigas da humanidade. Por meio dele, diferentes civilizações buscaram compreender nascimento, morte, desejo, medo, natureza, transformação e transcendência. 

Joseph Campbell identificou estruturas míticas que reaparecem entre culturas distantes. Jung percebeu nos mitos manifestações de imagens arquetípicas que atravessam tempos e povos. 

Talvez os antigos soubessem algo que nossa excessiva literalidade esqueceu: há verdades humanas que não cabem em conceitos e, por isso, precisam tornar-se imagens. 

É daí que emergem serpentes, dragões, grandes mães, heróis, labirintos, sereias e monstros das águas. O símbolo não exige que se acredite literalmente nele. Ele nos convida a pensar. 

E talvez esteja justamente aí o perigo para as consciências aprisionadas em verdades absolutas: pensar exige suportar a dúvida, admitir a complexidade e reconhecer que o mundo pode ser maior do que as fronteiras que desenhamos para compreendê-lo. 

Quando perdemos a capacidade de ler simbolicamente, aquilo que deveria despertar reflexão passa a provocar medo. E o medo, aliado à ignorância, quase sempre procura um culpado. 

Quando a fé se transforma em medo, é inquietante observar como certas formas de fundamentalismo religioso transformam em demoníaco tudo aquilo que escapa aos seus códigos. 

O mito torna-se demoníaco. A diferença torna-se demoníaca. O corpo torna-se suspeito. A sensualidade torna-se ameaça. A imaginação passa a ser vigiada. 

Não faço aqui uma crítica à fé. 

Tenho profundo respeito pela espiritualidade e pela busca humana do transcendente. Minha inquietação começa quando a fé se transforma em instrumento de medo e o evangelho, mal interpretado, em mecanismo de condenação. 

Há uma distância profunda entre fé e fanatismo, entre espiritualidade e intolerância. 

O evangelho, em sua essência, nos fala de amor, misericórdia, acolhimento e transformação interior. Há, portanto, uma dolorosa contradição quando alguém, dizendo defender o sagrado, sente-se autorizado a odiar, perseguir ou destruir. 

Uma fé verdadeiramente profunda não deveria temer uma escultura. 

O sagrado que precisa destruir símbolos para sobreviver talvez revele não a sua força, mas a fragilidade daquele que o interpreta. 

O Minhocão que transformei em escultura não nasceu como entidade religiosa. Nasceu das águas, da memória oral e das histórias daqueles que aprenderam a reconhecer no São Francisco mais do que um curso d’água: uma presença viva. 

Em minha obra, ele ressurge como Guardião do Rio São Francisco, metáfora da proteção das águas e da responsabilidade humana diante de uma natureza que insistimos em explorar como se dela não dependêssemos. 

Mas os seres que habitam as profundezas sempre exerceram fascínio sobre a humanidade. E a água é, por excelência, uma imagem das profundezas. 

A superfície é aquilo que conhecemos. Sob ela existe outro mundo. 

Talvez o Minhocão provoque inquietação justamente porque emerge simbolicamente desse lugar — como emergem nossos sonhos, nossas memórias, nossos desejos e nossos medos. 

Também as sereias habitam essa fronteira entre mundos. Reúnem natureza e humanidade, beleza e mistério, desejo e profundidade. Em minhas obras, pertencem ainda ao território mítico e afetivo de Três Marias e às histórias que ajudaram a construir nosso imaginário. 

Quando alguém olha para elas e vê apenas perversão ou presença demoníaca, volto à pergunta: o que essa pessoa está realmente vendo? A obra? Ou aquilo que sua própria consciência depositou sobre ela? 

Quebrar o espelho não apaga o reflexo. A história humana está repleta de livros queimados, imagens destruídas, esculturas mutiladas e obras censuradas em nome de alguma certeza moral. 

Há algo revelador nesse desejo de destruir um símbolo. 

Se fosse absolutamente insignificante, bastaria ignorá-lo. 

Quando alguém sente necessidade de destruí-lo, talvez esteja tentando destruir não o objeto, mas aquilo que o objeto despertou dentro de si. E quebrar o espelho jamais eliminou o rosto refletido. 

A arte possui essa inquietante capacidade de abrir portas que passamos a vida tentando manter fechadas. Conhecer-se exige reconhecer que somos constituídos de luz e sombra, beleza e contradição, razão e instinto, consciência e mistério. 

A maturidade não nasce da negação dessas dimensões, mas da capacidade de reconhecê-las e integrá-las. 

Por isso, quando alguém encontra um demônio numa obra de arte, talvez a pergunta mais importante não seja: “Por que o artista colocou o demônio ali?”. Mas: “Por que eu o vejo ali?”. 

Essa pergunta desloca o julgamento do mundo para a consciência. E talvez seja justamente aí que começa o conhecimento de si. 

Não acredito numa arte destinada apenas a oferecer respostas confortáveis. Interessa-me a arte que produz perguntas. Aquela que abre fissuras nas certezas e nos devolve algo que não sabíamos estar procurando. 

Minhas criaturas das águas não pedem adoração. Pedem imaginação. Não reivindicam verdades religiosas. Carregam memória. Não pretendem converter ninguém. Desejam lembrar. 

Lembrar que antes de nossas doutrinas existiram rios. Antes de nossos dogmas existiram estrelas. Antes de nossos livros, histórias eram contadas ao redor do fogo. 

E, antes de aprendermos a explicar o mundo, aprendemos a imaginá-lo. 

Uma sociedade não amadurece destruindo seus símbolos. Amadurece quando aprende a lê-los, quando amplia seu repertório e compreende que uma cultura incapaz de conviver com metáforas torna-se prisioneira da literalidade. 

Por isso, continuarei buscando nas águas do São Francisco seus seres, suas histórias, seus guardiões, suas mulheres e seus mistérios. Porque acredito que o olhar lançado sobre uma obra é, muitas vezes, uma autobiografia involuntária daquele que olha. 

Diante da arte, cada um revela algo de si. Uns encontram beleza. Outros, memória. Alguns encontram poesia. Outros encontram perguntas. E há aqueles que encontram demônios. 

A obra permanece diante de todos. Silenciosa. Como um espelho. Talvez esperando apenas que compreendamos: nem todo monstro que enxergamos habita o mundo. Alguns emergem das águas profundas de nós mesmos. 

Zackia Daura, artista, escritora, escultora e pesquisadora dos mitos, símbolos e arquétipos ligados às águas, à memória e ao imaginário ribeirinho do Rio São Francisco 


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